#COLEES POLMICAS DO NOSSO TEMPO

PAULO FREIRE

A IMPORTNCIA DO ATO DE LER
em trs artigos que se completam

23 edio

#CIP-Brasil. Catalogao na Publicao Cmara Brasileira do Livro, SP

F934i

Freire, Paulo, 1921  A importncia do ato de ler: em trs artigos que se completam / Paulo Freire.  So Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989. (Coleo polmicas 
do nosso tempo; 4) 1. Alfabetizao (Educao de adultos) 2. Alfabetizao (Educao de adultos)  So Tom e Prncipe 3. Freire Paulo, 1921  4. Leitura I. Ttulo.

17. e 18. CDD  372.012 17.  001.5 18.  001.543 17. E 18.  374.01206699 82-1130

ndices para catlogo sistemtico: 1. Alfabetizao de adultos: Mtodo Paulo Freire: Educao 374.012 (17. e 18.) 2. Leitura: Comunicao 001.5 (17.) 001.543 (18.) 
3. Mtodo Paulo Freire: Alfabetizao de adultos: Educao 374.012 (17. e 18.) 4. So Tom e Prncipe: Alfabetizao de adultos: Educao 374.01206699 (17. e 18.)

#Sumrio

Prefcio................................................................................................................................7

Apresentao.......................................................................................................................8

A importncia do ato de ler.................................................................................................9

Alfabetizao de adultos e bibliotecas populares  uma introduo ..................................15

O povo diz sua palavra ou a alfabetizao em So Tom e Prncipe ..................................22

#A IMPORTNCIA DO ATO DE LER  Paulo Freire Conselho Editorial: Antonio Joaquim Severino, Casemiro dos Reis Filho, Demerval Saviani, Gilberta S. de Martinho Jannuzzi, 
Miguel de la Puente, Milton de Miranda e Walter Garcia. Produo Editorial: Antonio de Paulo Silva Reviso: Heitor Ferreira da Costa Criao de Capa: Carlos Clmen 
Arte-final: Adonias Pereira 1 edio  1981

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorizao expressa do autor e dos editores  1981 by Paulo Freire Direitos desta edio CORTEZ EDITORA 
/ AUTORES ASSOCIADOS Rua Bartira, 387  Tel.: (011) 864-0111 05009  So Paulo  SP Impresso no Brasil  1989

#Com lvaro de Faria, lvaro Vieira Pinto e Ernani Maria Fiori experimentei, no Chile, em tempo de exlio, momentos de intensa criatividade. Aos trs, fraternalmente.

Paulo Freire So Paulo, junho de 1982

#Prefcio
O presente livro de Paulo Freire constitui- se em uma palestra sobre a importncia do ato de ler em uma comunicao sobre as relaes da biblioteca popular com a 
alfabetizao de adultos e em um artigo que expe a experincia de alfabetizao de adultos desenvolvida pelo autor e sua equipe em So Tom e Prncipe. No  preciso 
apresentar Paulo Freire aos leitores deste livro; Paulo Freire, mesmo durante os longos anos de exlio, sempre esteve entre ns, pela mediao de seu testemunho 
do educador universal, dimenso a que acedeu ao se comprometer politicamente com a tarefa da recuperao da humanidade do oprimido. Pouco importa onde se encontra 
o oprimido, pouco importa sua nacionalidade: o que est em causa  a dignidade da pessoa humana, que, na opresso ou na libertao, atinge uma dimenso de universalidade. 
Ao fazer a apresentao deste trabalho, gostaria de dizer aos leitores que ele volta a reafirmar os traos mais significativos do pensamento de Paulo Freire. No 
seu estilo acessvel e dialogante, Paulo Freire nos envolve numa relao diferente, inserindo- nos em um verdadeiro "circulo de cultura", onde nos sentimos participando, 
enquanto sujeitos, de Uma experincia real. Ao mesmo tempo, seu pensamento se reapresenta qual testemunho renovado de sua profunda compreenso do significado da 
educao no contexto da existncia social e individual dos homens.  trabalhando a temtica da leitura, discutindo sua importncia, explicitando a compreenso critica 
da alfabetizao e do papel de uma biblioteca popular relatando e documentando suas experincias de alfabetizao e de educao poltica que Paulo Freire produz 
sua obra, pensando e repensando sua prpria prtica, sua vivncia pessoal. Isto porque a leitura da palavra  sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a 
ler, a escrever, alfabetizar- se , antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, no numa manipulao mecnica de palavras mas numa relao 
dinmica que vincula linguagem e realidade. Adernais, a aprendizagem da leitura e a alfabetizao so atos de educao e educao  um ato fundamentalmente poltico. 
Paulo Freire reafirma a necessidade de que educadores e educandos se posicionem criticamente ao vivenciarem a educao, superando as posturas ingnuas ou "astutas", 
negando de vez a pretensa neutralidade da educao. Projeto comum e tarefa solidria de educandos e educadores, a educao deve ser vivenciada como uma prtica concreta 
de libertao e de construo da histria. E aqui devemos ser todos sujeitos, solidrios nesta tarefa conjunta, nico caminho para a construo de uma sociedade 
na qual no existiro mais exploradores e explorados, dominantes doando sua palavra opressora a dominados. Antnio Joaquim Severino So Paulo, agosto de 1982

#Apresentao
Desde que voltei para o Brasil em junho de 1980 me perguntava, de quando em vez, se no seria interessante organizar um pequeno livro em que, apresentando, passo 
a passo, os materiais - Cadernos de Cultura Popular - usados em So Tom e Prncipe, na fase da alfabetizao e da ps- alfabetizao, fizesse comentrios aos mesmos. 
As cartas aos animadores culturais sobre como trabalhar com estes materiais j haviam sido publicadas pela Brasiliense em junho de 1980, no livro preparado por Carlos 
Brando, A questo poltica da educao popular. O tempo foi passando, at que, agora, resolvi, pelo menos parcialmente, realizar o projeto, ao acrescentar ao ltimo 
artigo deste pequeno livro uma parte que no havia no original publicado no ano passado pela Harvard Educational Review, em que comento os Cadernos de Exerccios, 
Praticar para Aprender e o Segundo Caderno de Cultura Popular, empregados em So Tom e Prncipe, no Programa de Educao de Adultos. Creio, finalmente, que os trs 
textos que aparecem no livro tm que ver um com o outro, na sua temtica. So Paulo, maio de 1982 PAULO FREIRE

#A Importncia do ato de ler*
Rara tem sido a vez, ao longo de tantos anos de prtica pedaggica, por isso poltica, em que me tenho permitido a tarefa de abrir, de inaugurar ou de encerrar encontros 
ou congressos. Aceitei faz-la agora, da maneira porm menos formal possvel. Aceitei vir aqui para falar um pouco da importncia do ato de ler. Me parece indispensvel, 
ao procurar falar de tal importncia, dizer algo do momento mesmo em que me preparava para aqui estar hoje; dizer algo do processo em que me inseri enquanto ia escrevendo 
este texto que agora leio, processo que envolvia uma compreenso critica do ato de ler, que no se esgota na decodificao pura da palavra escrita ou da linguagem 
escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligncia do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, da que a posterior leitura desta no possa prescindir 
da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreenso do texto a ser alcanada por sua leitura c rtica implica a percepo 
das relaes entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importncia do ato de ler, eu me senti levado - e at gostosamente - a "reler" momentos fundamentais 
de minha prtica, guardados na memria, desde as experincias mais remotas de minha infncia, de minha adolescncia, de minha mocidade, em que a compreenso critica 
da importncia do ato de ler se veio em mim constituindo. Ao ir escrevendo este texto, ia "tomando distncia" dos diferentes momentos em que o ato de ler se veio 
dando na minha experincia existencial. Primeiro, a "leitura" do mundo, do pequeno mundo em que me movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo de 
minha escolarizao, foi a leitura da "palavramundo". A retomada da infncia distante, buscando a compreenso do meu ato de "ler" o mundo particular em que me movia 
- e at onde no sou trado pela memria - , me  absoluta- mente significativa. Neste esforo a que me vou entregando, re- crio, e revivo, no texto que escrevo, 
a experincia vivida no momento em que ainda no lia a palavra. Me vejo ento na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de rvores, algumas delas como se 
fossem gente, tal a intimidade entre ns -  sua sombra brincava e em seus galhos mais dceis  minha alt ura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam 
para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sto, seu terrao - o stio das avencas de minha me - , o quintal amplo em que se 
achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de p, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo 
de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras. Os "textos", as "palavras", as "letras" daquele contexto - em cuja percepo 
rio experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber - se encarnavam numa srie de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreenso eu 
ia apreendendo no meu trato com eles nas minhas relaes com meus irmos mais velhos e com meus pais. Os "textos", as "palavras", as "letras" daquele contexto se 
encarnavam no canto dos pssaros - o do sanhau, o do olha- pro- caminho- quem- vem, o do bem t e- vi, o do *

Trabalho apresentado na abertura do Congresso Brasileiro de Leitura, realizado em Campinas, em novembro de 1981.

#sabi; na dana das copas das rvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, troves, relmpagos; as guas da chuva brincando de geografia: inventando 
lagos, ilhas, rios, riachos. Os "textos", as "palavras", as "letras" daquele contexto se encarnavam tambm no assobio do vento, nas nvens do cu, nas suas cores, 
nos seus movimentos; na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores - das rosas, dos jasmins - , no corpo das rvores, na casca dos frutos. Na tonalidade 
diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga- espada verde, o verde da manga- espada inchada; o amarelo esverdeado da mesma manga 
amadurecendo, as pintas negras da manga mais alm de madura. A relao entre estas cores, o desenvolvimento do fruto, a sua resistncia  nossa manipulao e o seu 
gosto. Foi nesse tempo, possivelmente, que eu, fazendo e vendo fazer, aprendi a significao da ao de amolegar. Daquele contexto faziam parte igualmente os animais: 
os gatos da famlia, a sua maneira manhosa de enroscar- se nas pernas da gente, o seu miado, de splica ou de raiva; Jol, o velho cachorro negro de meu pai, o seu 
mau humor toda vez que um dos gatos incautamente se aproximava demasiado do lugar em que se achava comendo e que era seu - "estado de esprito", o de Joli, em tais 
momentos, completamente diferente do de quando quase desportivamente perseguia, acuava e matava um dos muitos timbus responsveis pelo sumio de gordas galinhas 
de minha av. Daquele contexto - o do meu mundo imediato - fazia parte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenas, os 
seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do meu mundo imediato e de cuja existncia eu ns podia sequer suspeitar. 
No esforo de re- tomar a infncia distante, a que j me referi, buscando a compreenso do meu ato de ler o mundo particular em que me movia, permitam-me repetir, 
re- crio, re- vivo, no texto que escrevo, a experincia vivida no momento em que ainda no lia a palavra. E algo que me parece importante, no contexto geral de que 
venho falando, emerge agora insinuando a sua presena no corpo destas reflexes. Me refiro a meu medo das almas penadas cuja presena entre nos era permanente objeto 
das conversas dos mais velhos, no tempo de minha infncia. As almas penadas precisavam da escurido ou da semi- escurido para aparecer, das formas mais diversas 
- gemendo a dor de suas culpas, gargalhando zombeteiramente, pedindo oraes ou indicando esconderijos de botijas. Ora, at possivelmente os meus sete anos, o bairro 
do Recite onde nasci era iluminado por lampies que se perfilavam, com certa dignidade, pelas ruas. Lampies elegantes que, ao cair da noite, se "davam"  vara mgica 
de seus acendedores. Eu costumava acompanhar, do porto de minha casa, de longe, a figura magra do "acendedor de lampies" de minha rua, que vinha vindo, andar ritmado, 
vara iluminadora ao ombro, de lampio a lampio, dando luz  rua. Uma luz precria, mais precria do que a que tnhamos dentro de casa. Uma luz muito mais tomada 
pelas sombras do que iluminadora delas. No havia melhor clima para peraltices das almas do que aquele. Me lembro das noites em que, envolvido no meu re medo, esperava 
que o tempo passasse, que a noite se fosse, que a madrugada semiclareada viesse trazendo com ela o canto dos passarinhos "manhecedores". Os meus temores noturnos 
terminaram por me aguar, manhs abertas, a percepo de um sem- nmero de rudos que se perdiam na claridade e na algazarra dos dias e que eram misteriosamente 
sublinhados no silncio fundo das noites.

#Na medida, porm, em que me fui tomando ntimo do meu mundo, em que melhor o percebia e o entendia na "leitura" que dele ia fazendo, os meus temores iam diminuindo. 
Mas,  importante dizer, a "leitura" do meu mundo, que m foi sempre fundamental, e no fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calas curtas. 
A curiosidade do menino no iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, 
em certo momento dessa rica experincia de compreenso do meu mundo imediato, sem que tal compreenso tivesse significado malquerenas ao que ele tinha de encantadoramente 
misterioso, que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra. A decifrao da palavra flua naturalmente da "leitura" do mundo particular. No era algo que 
se estivesse dando superpostamente a ele. Fui alfabetizado no cho do quintal de minha casa,  sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e no do mundo maior 
dos meus pais. O cho foi o meu quadro-neqro; gravetos, o meu giz. Por isso  que, ao chegar  escolinha particular de Eunice Vasconcelos, cujo desaparecimento recente 
me feriu e me doeu, e a quem presto agora uma homenagem sentia, j estava alfabetizada. Eunice continuou e aprofundou o trabalho de meus pais. Com ela, a leitura 
da palavra, da frase, da sentena, jamais significou uma ruptura com a "leitura" do mundo. Com ela, a leitura da palavra foi a leitura da "palavramundo". H pouco 
tempo, com profunda emoo, visitei a casa onde nasci. Pisei o mesmo cho em que me pus de p, andei, corri, falei e aprendi a ler. O mesmo do - primeiro mundo que 
se deu  minha compreenso pela "leitura" que ele fui fazendo. L, re- encontrei algumas das rvores da m inha infncia. Reconheci- as sem dificuldade. Quase abracei 
os grossos troncos - os jovens troncos de minha infncia. Ento, uma saudade que eu costumo chamar de mansa ou me envolveu cuidadosamente. Deixei a casa contente, 
com a alegria de quem re- encontra gente querida. Continuando neste esforo de "re-ler" momentos fundamentais de experincias de minha infncia, de minha adolescncia, 
de minha mocidade, em que a compreenso crtica da importncia do ato de ler se veio em mim constituindo atravs de sua prtica, retomo o tempo em que, como aluno 
do chamado curso ginasial, me experimentei na percepo critica dos textos que lia em classe, com a colaborao, at hoje recordada, do meu ento professor de lngua 
portuguesa. No eram, porm, aqueles momentos puros exerccios de que resultasse um simples dar-nos conta de uma pgina escrita diante de ns que devesse ser cadenciada, 
mecnica e enfadonhamente "soletrada" e realmente lida. No eram aqueles momentos "lies de leitura", no sentido tradicional desta expresso. Eram momentos em que 
os textos se ofereciam  nossa inquieta procura, incluindo a do ento jovem professor Jos Pessoa. Algum tempo depois, como professor tambm de portugus, nos meus 
vinte anos, vivi intensamente a importncia elo de ler e de escrever, no fundo indicotomizveis, com os alunos das primeiras sries do ento chamado curso ginasial. 
A regncia verbal, a sintaxe de concordncia, o problema da crase, o sinclitismo pronominal, nada disso era reduzido por mim a tabletes de conhecimentos que devessem 
ser engolidos pelos estudantes. Tudo isso, pelo contrrio, era proposto  curiosidade dos alunos de maneira dinmica e viva, no corpo mesmo de textos, ora de autores 
que estudvamos, ora deles prprios, como objetos a serem desvelados e no como algo parado, cujo

#perfil eu descrevesse. Os alunos no tinham que memorizar mecanicamente a descrio do objeto, mas apreender a sua significao profunda. S apreendendo- a seriam 
capazes de saber, por isso, de memoriza- la, de fix - la. A memorizao mecnica da descrio do elo no se constitui em conhecimento do objeto. Por isso,  que 
a leitura de um texto, tomado como pura descrio de um objeto  feita no sentido de memoriz- la, nem  real leitura, nem dela portanto resulta o conhecimento do 
objeto de que o texto fala. Creio que muito de nossa insistncia, enquanto professoras e professores, em que os estudantes "leiam", num semestre, um sem- nmero 
de captulos de livros, reside na compreenso errnea que s vezes temos do ato de ler. Em minha andarilhagem pelo mundo, no foram poucas as vezes am que jovens 
estudantes me falaram de sua luta s voltas com extensas bibliografias a serem muito mais "devoradas" do que realmente lidas ou estudadas. Verdadeiras "lies de 
leitura" no sentido mais tradicional desta expresso, a que se achavam submetidos em nome de sua formao cientfica e de que deviam prestar contas atravs do famoso 
controle de leitura. Em algumas vezes cheguei mesmo a ler, em relaes bibliogrficas, indicaes em torno de que pginas deste ou daquele captulo de tal ou qual 
livro deveriam ser lidas: "Da pgina 15  37". A insistncia na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a serem compreendidos, e no mecanicamente 
memorizados, revela uma viso mgica da palavra escrita. Viso que urge ser superada. A mesma, ainda que encarnada desde outro ngulo, que se encontra, por exemplo, 
em quem escreve, quando identifica a possvel qualidade de seu trabalho, ou no, com a quantidade de pginas escritas. No entanto, um dos documentos filosficos 
mais importantes de que dispomos, As teses sobre Feuerbach, de Marx, tem apenas duas pginas e meia... Parece importante, contudo, para evitar uma compreenso errnea 
do que estou afirmando, sublinhar que a minha critica O magicizao da palavra no significa, de maneira alguma, uma posio pouco responsvel de minha parte com 
relao  necessidade que temos, educadores e educandos, de ler, sempre e seriamente, os clssicos neste ou naquele campo do saber, de nos adentrarmos nos textos, 
de criar uma disciplina intelectual, sem a qual inviabilizamos a nossa prtica enquanto professores e estudantes. Dentro ainda do momento bastante rico de minha 
experincia como professor de lngua portuguesa, me lembro, to vivamente quanto se ela fosse de agora e no de um ontem bem remoto, das vezes em que demorava na 
anlise de textos de Gilberto Freyre, de Lins do Rego, de Graciliano Ramos, de Jorge Amado. Textos que eu levava de casa e que ia lendo com os estudantes, sublinhando 
aspectos de sua sintaxe estreitamente ligados ao bom gosto de sua linguagem. quelas anlises juntava comentrios em torno de necessrias diferenas entre o portugus 
de Portugal e o portugus do Brasil. Venho tentando deixar claro, neste trabalho em torno da importncia do ato de ler - e no  demasiado repetir agora - , que 
meu esforo fundamental vem sendo o de explicitar como, em mim, aquela importncia vem sendo destacada.  como se eu estivesse fazendo a "arqueologia" de minha compreenso 
do complexo ato de ler, ao longo de minha experincia existencial. Da que tenha falado de momentos de minha infncia, de minha adolescncia, dos comeos de minha 
mocidade e termine agora revendo, em traos gerais, alguns dos aspectos centrais da proposta que fiz no campo da alfabetizao de adultos h alguns anos.

#Inicialmente me parece interessante reafirmar que sempre vi a alfabetizao de adultos como um ato poltico e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como um ato 
criador. Para mim seria impossvel engajar-me num trabalho de memorizao mecnica dos ba-be- bi- bo-bu, dos la- le- li- lo- lu. Da que tambm no pudesse reduzir 
a alfabetizao ao ensino puro da palavra, das slabas ou das letras. Ensino em cujo processo o alfabetizador fosse "enchendo" com suas palavras as cabeas supostamente 
"vazias" dos alfabetizandos. Pelo contrrio, enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo da alfabetizao tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato 
de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relao pedaggica, no significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade 
na construo de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem. Na verdade, tanto o alfabetizador quanto o alfabetizando, ao pegarem, por exemplo, um objeto, 
como lao agora com o que tenho entre os dedos, sentem o objeto, percebem o objeto sentido e so capazes de expressar verbalmente o objeto sentido e percebido. Como 
eu, o analfabeto  capaz de sentir a caneta, de perceber a caneta e de dizer caneta. Eu, porm, sou capaz de no apenas sentir a caneta, de perceber a caneta, de 
dizer caneta, mas tambm de escrever caneta e, conseqentemente, de ler caneta. A alfabetizao  a criao ou a montagem da expresso escrita da expresso oral. 
Esta montagem no pode ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando. A tem ele um momento de sua tarefa criadora. Creio desnecessrio me alongar mais, 
aqui e agora, sobre o que tenho desenvolvido, em diferentes momentos, a propsito da complexidade deste processo. A um ponto, porm, referido vrias vezes neste 
texto, gostaria de voltar, pela significao que tem para a compreenso critica do ato de ler e, conseqentemente, para a proposta de alfabetizao a que me consagrei. 
Refiro-me a que a leitura do mundo precede sem pre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Na proposta a que me referi 
acima, este movimento do mundo  palavra e da palavra ao mundo est sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo atravs da leitura que dele 
fazemos. De alguma maneira, porm, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra no  apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de 
"escrev- lo" ou de "reescreve- lo", quer dizer, de transform - lo atravs de nossa prtica consciente. Este movimento dinmico  um dos aspectos centrais, para 
mim, do processo de alfabetizao. Da que sempre tenha insistido em que as palavras com que organizar o programa da alfabetizao deveriam vir do universo vocabular 
dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietaes, as suas reivindicaes, os seus sonhos. Deveriam vir carregadas da 
significao de sua experincia existencial e no da experincia do educador. A pesquisa do que chamava universo vocabular nos dava assim as palavras do Povo, grvidas 
de mundo. Elas nos vinham atravs da leitura do mundo que os grupos populares faziam. Depois, voltavam a eles, inseridas no que chamava e chamo de codificaes, 
que so representaes da realidade. A palavra tijolo, por exemplo, se inseriria numa representao pictrica, a de um grupo de pedreiros, por exemplo, construindo 
uma casa. Mas, antes da devoluo, em forma escrita, da palavra oral dos grupos populares, a eles, para o processo de sua apreenso e no de sua memorizao mecnica, 
costumvamos desafiar os alfabetizandos com um conjunto de situaes codificadas de cuja decodificao ou "leitura" resultava a percepo critica do que  cultura, 
pela compreenso da prtica ou do trabalho humano, transformador do mundo. No fundo, esse conjunto de

#representaes de situaes concretas possibilitava aos grupos populares uma "leitura" da "leitura" anterior do mundo, antes da leitura palavra. Esta "leitura" 
mais crtica da "leitura" anterior menos crtica do mundo possibilitava aos grupos populares, s vezes em posio fatalista em face das injustias, uma compreenso 
diferente de sua indigncia.  neste sentido que a leitura critica da realidade, dando- se num processo de alfabetizao ou no e associada sobretudo a certas prticas 
claramente polticas de mobilizao e de organizao, pode constituir- se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ao contra- hegemnica. Concluindo estas 
reflexes em torno da importncia do ato de ler, que implica sempre percepo critica, interpretao e "re- escrita" do lido, gostaria de dizer que, depois de hesitar 
um pouco, resolvi adotar o procedimento que usei no tratamento do tema, em consonncia com a minha forma de ser e com o que posso fazer. Finalmente, quero felicitar 
os idealizadores e os organizadores deste Congresso. Nunca, possivelmente, temos necessitado tanto de encontros como este, como agora. Paulo Freire 12 de novembro 
de 1981

#Alfabetizao de adultos e bibliotecas populares - uma introduo*
As minhas primeiras palavras so de agradecimento s idealizadoras e organizadoras deste Congresso por me terem convidado para nele participar, falando em torno 
de um tema que a mim sempre me interessou. Falar de alfabetizao de adultos e de bibliotecas populares  falar, entre muitos outros, do problema da leitura e da 
escrita. No da leitura de palavras e de sua escrita em si prprias, como se l-las e escrev-las no implicasse uma outra leitura, prvia e concomitante quela, 
a leitura da realidade mesma. A compreenso critica da alfabetizao, que envolve a compreenso igualmente critica da leitura, demanda a compreenso critica da biblioteca. 
Ao falar, porm, de uma viso critica, autenticando- se numa prtica da mesma forma critica da alfabetizao, reconheo e no s reconheo, mas sublinho a existncia 
de uma prtica oposta e de uma compreenso tambm, que, em ensaio h muito tempo publicado, chamei de ingnua 1 . Seria enfadonho insistir aqui, exaustivamente, 
em pontos referidos em outras oportunidades em que tenho discutido o problema da alfabetizao. De qualquer maneira, contudo, parece importante, mesmo correndo o 
risco necessrio de repetirme um pouco, tentar aclarar ou reaclarar o que venho chamando de prtica e compreenso criticas da alfabetizao, em oposio  ingnua 
e  "astuta". Idnticas as duas ltimas do ponto de vista objetivo, distinguem- se, porm, quanto  subjetividade de seus agentes. O mito da neutralidade da educao, 
que leva  negao da natureza poltica do processo educativo e a tom -lo como um quefazer puro, em que nos engajamos a servio da humanidade entendida como uma 
abstrao,  o ponto de partida para compreendermos as diferenas fundamentais entre uma prtica ingnua, uma prtica "astuta" e outra critica. Do ponto de vista 
critico,  to impossvel negar a natureza poltica do processo educativo quanto negar o carter educativo do ato poltico. Isto no significa, porm, que a natureza 
poltica do processo educativo e o carter educativo do ato poltico esgotem a compreenso daquele processo e deste ato. Isto significa ser impossvel, de um lado, 
como j salientei, uma educao neutra, que se diga a servio da humanidade, dos seres humanos em geral; de outro, uma prtica poltica esvaziada de significao 
educativa. Neste sentido  que todo partido poltico  sempre educador e, como tal, sua proposta poltica vai ganhando carne ou no na relao entre os atos de denunciar 
e de anunciar. Mas  neste sentido tambm que, tanto no caso do processo educativo quanto no do ato poltico, uma das questes fundamentais seja a clareza em torno 
de a favor de quem e do qu, portanto contra quem e contra o qu, fazemos a educao e de a favor de quem e do qu, portanto contra quem e contra o qu, desenvolvemos 
a atividade poltica. Quanto mais ganhamos esta clareza atravs da prtica, tanto mais percebemos a impossibilidade de separar o inseparvel: a educao
*

Palestra apresentada no XI Congresso Brasileiro de biblioteconomia e Documentao, realizado em Joo Pessoa em janeiro de 1992. 1 Freire, Paulo. "Alfabetizao de 
Adultos  Crtica de sua viso ingnua, compreenso de sua viso crtica". In: Ao cultural para a liberdade e outros escritos. 5 ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 
1981.

#da poltica. Entendemos ento, facilmente, no ser possvel pensar, sequer, a educao, sem que se esteja atento  questo do poder. No foi, por exemplo - costumo 
sempre dizer - , a educao burguesa a que criou ou enformou a burguesia, mas a burguesia que, chegando ao poder, teve o poder de sistematizar a sua educao. Os 
burgueses, antes da tomada do poder, simplesmente no poderiam esperar da aristocracia no poder que pusesse em prtica a educao que lhes interessava. A educao 
burguesa, por outro lado, comeou a se constituir, historicamente, muito antes mesmo da tomada do poder pela burguesia. Sua sistematizao e generalizao  que 
s foram viveis com a burguesia como classe dominante e no mais contestatria. Mas se, do ponto de vista critico, no  possvel pensar sequer a educao sem que 
se pense a questo do poder; se no  possvel compreender a educao como uma prtica autnoma ou neutra, isto no significa, de modo algum, que a educao sistemtica 
seja uma pura reprodutora da ideologia dominante. As relaes entre a educao enquanto subsistema e o sistema maior so relaes dinmicas, contraditrias e no 
mecnicas. A educao reproduz a ideologia dominante,  certo, mas no faz apenas isto. Nem mesmo em sociedades altamente modernizadas, com classes dominantes realmente 
competentes e conscientes do papel da educao, ela  apenas reprodutora da ideologia daquelas classes. As contradies que caracterizam a sociedade como est sendo 
penetram a intimidade das instituies pedaggicas em que a educao sistemtica se est dando e alteram o seu papel ou o seu esforo reprodutor da ideologia dominante. 
Na medida em que compreendemos a educao, de um ledo, reproduzindo a ideologia dominante, mas, de outro, proporcionando, independentemente da inteno de quem tem 
o poder, a negao daquela ideologia (ou o seu desvelamento) pela confrontao entre ela e a realidade (como de fato est sendo e no como o discurso oficial diz 
que ela ), realidade vivida pelos educandos e pelos educadores, percebemos a inviabilidade de uma educao neutra. A partir deste momento, falar da impossvel neutralidade 
da educao j no nos assusta ou intimida.  que o fato de no ser o educador um agente neutro no significa, necessariamente, que deve ser um manipulador. A opo 
realmente libertadora nem se realiza atravs de uma prtica manipuladora nem tampouco por meio de uma prtica espontanesta. O espontanesmo  licencioso, por isso 
irresponsvel. O que temos de fazer, ento, enquanto educadoras ou educadores,  aclarar, assumindo a nossa opo, que  poltica, e sermos coerentes com ela, na 
prtica. A questo da coerncia entre a opo proclamada e a prtica  uma das exigncias que educadores crticos se fazem a si mesmos.  que sabem muito bem que 
no  o discurso o que ajuza a prtica, mas a prtica que ajuza o discurso. Nem sempre, infelizmente, muitos de ns, educadoras e educadores que proclamamos uma 
opo democrtica, temos uma prtica em coerncia com o nosso discurso avanado. Da que o nosso discurso, incoerente com a nossa prtica, vire puro palavreado. 
Da que, muitas vezes, as nossas palavras "inflamadas", porm contraditadas por nossa prtica autoritria, entrem por um ouvido e saiam pelo outro os ouvidos das 
massas populares, cansadas, neste pas, do descaso e do desrespeito com que h quatrocentos e oitenta anos vm sendo tratadas pelo arbtrio e pela arrogncia dos 
poderosos. Um outro ponto que me parece interessante sublinhar, caracterstico de uma viso

#crtica da educao, portanto da alfabetizao,  o da necessidade que temos, educadoras e educadores, de viver, na prtica, o reconhecimento bvio de que nenhum 
de ns est s no mundo. Cada um de ns  um ser no mundo, com o mundo e com os outros. Viver ou encarnar esta constatao evidente, enquanto educador ou educadora, 
significa reconhecer nos outros - no importa se alfabetizandos ou participantes de cursos universitrios; se alunos de escolas do primeiro grau ou se membros de 
uma assemblia popular - o direito de dizer a sua palavra. Direito deles de falar a que corresponde o nosso dever de escut- los. De escut- los corretamente, com 
a convico de quem cumpre um dever e no com a malcia de quem faz um favor para receber muito mais em troca. Mas, como escutar implica falar tambm, ao dever de 
escut- los corresponde o direito que igualmente temos de falar a eles. Escut-los no sentido acima referido , no fundo, falar com eles, enquanto simplesmente falar 
a eles seria uma forma de no ouvi- los. Dizer- lhes sempre a nossa palavra, sem jamais nos expormos e nos oferecermos  deles, arrogantemente convencidos de que 
estamos aqui para salv-los,  uma boa maneira que temos de afirmar o nosso elitismo, sempre autoritrio. Este no pode ser o modo de atuar de uma educadora ou de 
um educador cuja opo  libertadora. Quem apenas fala e jamais ouve; quem "imobiliza" o conhecimento e o transfere a estudantes, no importa se de escolas primrias 
ou universitrias; quem ouve o eco apenas de suas prprias palavras, numa espcie de narcisismo oral, quem considera petulncia da classe trabalhadora reivindicar 
seus direitos, quem pensa, por outro lado, que a classe trabalhadora  demasiado inculta e incapaz, necessitando, por isso, de ser libertada de cima para baixo, 
no tem realmente nada que ver com libertao nem democracia, Pelo contrrio, quem assim atua e assim pensa, consciente ou inconscientemente, ajuda a preservao 
das estruturas autoritrias. Um outro aspecto ligado a este e a que gostaria de me referir  o da necessidade que temos os educadores e aa educadoras de "assumir" 
a ingenuidade dos educandos para poder, com eles, super- la. Estando num lado da rua, ningum estar em seguida no outro, a no ser atravessando a rua. Se estou 
no lado de c, no posso chegar ao lado de l, partindo de l, mas de c. Assim tambm ocorre com a compreenso menos rigorosa, menos exata da realidade. Temos de 
respeitar os nveis de compreenso que os educandos no importa quem sejam - esto tendo de sua prpria realidade. Impor a eles a nossa compreenso em nome de sua 
libertao  aceitar solues autoritrias como caminhos de liberdade. Mas assumir a ingenuidade dos educandos demanda de ns a humildade necessria para assumir 
tambm a sua criticidade, superando, com ela, a nossa ingenuidade tambm. S educadoras e educadores autoritrios negam a solidariedade entre o ato de educar e o 
ato de serem educados pelos educandos; s eles separam o ato de ensinar do de aprender, de tal modo que ensina quem se supe sabendo e aprende quem  tido como quem 
nada sabe. Na verdade, para que a afirmao "quem sabe, ensina a quem no sabe" se recupere de seu carter autoritrio,  preciso que quem sabe saiba sobretudo que 
ningum ache tudo e que ningum tudo ignora. O educador, como quem sabe, precisa reconhecer, primeiro, nos educandos em processo de saber mais, os sujeitos, com 
ele, deste processo e no pacientes acomodados; segundo, reconhecer que o conhecimento no  um dado a, algo imobilizado, concludo, terminado, a ser transferido 
por quem o

#adquiriu a quem ainda no o possui. A neutralidade da educao, de que resulta ser ela entendida como um quefazer puro, a servio da formao de um tipo ideal de 
ser humano, desencarnado do real, virtuoso e bom,  uma das conotaes fundamentais da viso ingnua da educao. Do ponto de vista de uma tal viso da educao, 
 da intimidade das conscincias, movidas pela bondade dos coraes, que o mundo se refaz. E, j que a educao modela as almas e recria os coraes, ela  a alavanca 
das mudanas sociais. Em primeiro lugar, porm,  preciso que a educao d carne e esprito ao modelo de ser humano virtuoso que, ento, instaurar uma sociedade 
justa e bela. Nada poder ser feito antes que uma gerao inteira de gente boa e justa assuma a tarefa de criar a sociedade ideal. Enquanto esta gerao no surge, 
algumas obras assistenciais e humanitrias so realizadas, com as quais se pode inclusive ajudar o projeto maior. H um sem-nmero de outras caractersticas da viso 
ingnua a que me estou referindo e que o tempo desta exposio no me permite analisar. Sublinhei apenas algumas das mais gritantes de suas marcas, para, em seguida, 
me fixar em outras ao nvel da alfabetizao de adultos. O carter mgico emprestado  palavra escrita, vista ou concebida quase como uma palavra salvadora,  uma 
delas. O analfabeto, porque no a tem,  um "homem perdido", cego, quase fora da realidade.  preciso pois, salv- lo, e sua salvao est em passivamente receber 
a palavra - uma espcie de amuleto - que a "parte melhor" do mundo lhe oferece benevolamente. Da que o papel do analfabeto no seja o de sujeito de sua prpria 
alfabetizao, mas o de paciente que se submete docilmente a um processo em que no tem ingerncia. Do ponto de vista critico e democrtico como ficou mais ou menos 
claro nas anlises anteriores, o alfabetizando, e no o analfabeto, se insere num processo criador, de que ele  tambm sujeito. Desde o comeo, na prtica democrtica 
e critica, leitura do mundo e a leitura da palavra esto dinamicamente juntas. O comando da leitura e da escrita se d a partir de palavras e de temas significativos 
 experincia comum dos alfabetizandos e no de palavras e de temas apenas ligados  experincia do educador. A sua leitura do real, contudo, no pode ser a repetio 
mecanicamente memorizada da nossa maneira de ler o real. Se assim fosse, estaramos caindo no mesmo autoritarismo to constanteme nte criticado neste texto. Em certo 
momento desta exposio disse que, se do ponto de vista objetivo os ingnuos se identificam com os "astutos"2 , distinguem se porm subjetivamente. Na verdade, objetivamente 
uns e outros obstaculizam a emancipao das classes e dos grupos sociais oprimidos. Ambos se acham mercados pela ideologia dominante, elitista, mas s os "astutos", 
conscientemente, assumem esta ideologia como prpria. Neste sentido, estes ltimos so conscientemente reacionrios. Por isso  que, neles, a ingenuidade  pura 
ttica. Assim, a nica diferena que h entre mim e um educador astutamente ingnuo, com relao  compreenso de um dos aspectos centrais do processo educativo 
est em que, sabendo ambos, ele e eu, que a educao no  neutra, some nte eu o afirmo.
2

A propsito de ingnuos e "astutos", ver Freire, Paulo. "O papel educativo das igrejas na Amrica Latina". In: Ao cultural para a liberd ade e outros escritos, 
p.15.

#Me parece importante chamar a ateno para a diferena entre o ingnuo no malicioso e o ingnuo astuto ou ttico.  que, na medida mesma em que a ingenuidade daquele 
no  maliciosa, ele pode, aprendendo diretamente de sua prtica, perceber a inoperncia de sua ao e, assim, renunciando  ingenuidade mas rejeitando a astcia 
ou a malcia, assumir uma nova posio. Agora, uma posio crtica. Se antes, na etapa da ingenuidade no ttica, a sua adeso aos chamados pobres era lrica, idealista, 
agora o seu compromisso se estabelece em novas bases. Se antes a transformao social era entendida de forma simplista, fazendo- se com a mudana, primeiro das conscincias, 
como se fosse a conscincia, de fato, a transformadora do real, agora a transformao social  percebida como processo histrico em que subjetividade e objetividade 
se prendem dialeticamente. J no h como absolutizar nem uma nem outra. Se antes a alfabetizao de adultos era tratada e realizada de forma autoritria, centrada 
na compreenso mgica da palavra, palavra doada pelo educador aos analfabetos; se antes os textos geralmente oferecidos como leitura aos alunos escondiam muito mais 
do que desvelavam a realidade, agora, pelo contrrio, a alfabetizao como ato de conhecimento, como ato criador e como ato poltico  um esforo de leitura do mundo 
e da palavra. Agora j no  possvel texto sem contexto. Por outro lado, na medida mesma em que este educador vai superando a viso mgica e autoritria da comea 
a dar a ateno necessria ao problema da mais oral em certas reas do que em outra e que exige procedimentos educativos especiais. Em reas cuja cultura tem memria 
preponderantemente oral e no h nenhum projeto de transformao infra - estrutural em andamento3 , o problema que se coloca no  o da leitura da palavra mas o 
de uma leitura mais rigorosa do mundo, que sempre precede a leitura da palavra. Se antes raramente os grupos populares eram estimulados a escrever seus textos, agora 
 fundamental faz- lo, desde o comeo mesmo da alfabetizao para que, na ps- alfabetizao, se v tentando a formao do que poder vir a ser uma pequena biblioteca 
popular, com incluso de pginas escritas pelos prprios educandos. O importante, porm, ao renunciar  "inocncia" e ao rejeitar a esperteza,  que, na nova caminhada 
que comea at os oprimidos, se desfaa de todas as marcas autoritrias e comece, na verdade, a acreditar nas massas populares. J no apenas fale a elas ou sobre 
elas, mas as oua, para poder talar com elas. A relevncia da biblioteca popular com relao aos programas de educao e de cultura popular em geral e no apenas 
de alfabetizao de adultos, creio que  apreendida tanto por educadoras e educadores numa posio ingnua, ou astutamente ingnua, quanto por aquelas e aqueles 
que se inserem numa perspectiva critica. O em que se distinguem,  na concepo - e na sua posta em prtica - da biblioteca. Deixemos de lado a posio ingnua no 
astuta e tomemos esta ltima como ponto de referncia para a nossa reflexo. De seu ngulo, assim como o processo de alfabetizao de adultos autoritariamente se 
centra na doao da palavra dominante e da temtica a ela ligada - aos alfabetizandos, com as quais a rea popular  culturalmente invadida, as bibliotecas populares 
sero to mais eficientes quanto mais
3

Ver, a este propsito, Freire, Paulo. Cartas  Guin-Bissau. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

#ajudarem e intensificarem esta invaso. Se, nesta prtica da alfabetizao, durante a sua primeira etapa, os textos pouco e pouco oferecidos  capacidade crescente 
de leitura dos alunos ora tm muito pouco que ver com a realidade dramaticamente vivida pelos grupos populares, ora, mistificando o concreto, insinuam que ele  
o que no est sendo, o pequeno acervo da biblioteca no tem por que ser diferente. Do ponto de vista autoritariamente elitista, por isso mesmo reacionrio, h uma 
incapacidade quase natural do povo. Incapaz de pensar certo, de abstrair, de conhecer, de criar, eternamente "de menor", permanentemente exposto s idias chamadas 
exticas, o povo precisa de ser "defendido". A sabedoria popular no existe, as manifestaes autnticas da cultura do povo no existem, a memria de suas lutas 
precisa ser esquecida, ou aquelas lutas contadas de maneira diferente; a "proverbial incultura" do povo no permite que ele participe ativamente da reinveno constante 
da sua sociedade. Os que pensam assim e assim agem, defendem uma estranha democracia, que ser to mais "pura" e perfeita, segundo eles, quanto menos povo nela participe. 
"Elitizar" os grupos populares com o desrespeito, obviamente, de sua linguagem e de sua viso de mundo, seria o sonho jamais, me parece, a ser logrado dos que se 
pem nesta perspectiva. Contra tudo isso se coloca a posio critico- democrtica da biblioteca popular. Da mesma maneira como, deste ponto de vista, a alfabetizao 
de adultos e a psalfabetizao implicam esforos no sentido de uma carreta compreenso do que  a palavra escrita, a linguagem, as suas relaes com o contexto 
de quem fala e de quem l e escreve, compreenso portanto da relao entre "leitura" do mundo e leitura da palavra, a biblioteca popular, como centro cultural e 
no como um depsito silencioso de livros,  vista como fator fundamental para o aperfeioamento e a intensificao de uma forma correta de ler o texto em relao 
com o contexto. Da a necessidade que tem uma biblioteca popular centrada nesta linha se estimular a criao de horas de trabalho em grupo, em que se faam verdadeiros 
seminrios de leitura, ora buscando o adentramento crtico no texto, procurando apreender a sua significao mais profunda, ora propondo aos leitores uma experincia 
esttica, de que a linguagem popular  intensamente rica. Um excelente trabalho, numa rea popular, sobretudo camponesa, que poderia ser desenvolvido por bibliotecrias, 
documentalistas, educadoras, historiadoras seria, por exemplo, o do levantamento da histria da rea atravs de entrevistas gravadas, em que as mais velhas e os 
mais velhos habitantes da rea, como testemunhos presentes, fossem fixando os momentos fundamentais da sua histria comum. Dentro de algum tempo se teria um acervo 
de estrias que, no fundo, fariam parte viva da Histria da rea4 . Estrias em torno de vultos populares famosos, do "doidinho" da vila, com sua importncia social, 
das supersties, das crendices, das plantas medicinais, da figura de algum doutor mdico, da de curandeiras e comadres, da de poetas do povo. Entrevistas com artistas 
da rea, os fazedores de bonecos, de barro ou de madeira, escritores quase sempre de mo cheia; com as rendeiras que porventura ainda existam com os rezadore s gerais, 
que curam amores desfeitos espinhelas cadas. Com este material todo poderiam ser feitos folhetos, com o respeito total  linguagem - sintaxe, semntica, prosdia 
- dos entrevistados. Estes folhetos, bem como as fitas
4

Conheci trabalhos como este realizando-se na Tanznia e na Guin-Bissau.

#gravadas, poderiam ser usados tanto na biblioteca mesmo em sesses prprias, quanto poderiam ser material de indiscutvel valor para os cursos de alfabetizao, 
de ps-alfabetizao ou para atividades outras no campo da educao popular na mesma rea. Na medida em que pesquisas como esta pudessem ser feitas em diferentes 
reas da regio, todo o material escrito e gravado poderia ser intercambiado.  possvel que em certas reas rurais, em funo do maior nvel de oralidade, os grupos 
populares prefiram ouvir as estrias de seus companheiros da mesma zona em lugar de l- las. No haver nisso mal nenhum. Um dos inmeros aspectos positivos de um 
trabalho como este , sem dvida, fundamentalmente, o reconhecimento do direito que o povo tem de ser sujeito da pesquisa que procura conhec- lo melhor. E no objeto 
da pesquisa que os especialistas fazem em torno dele. Nesta segunda hiptese, os especialistas falam sobre ele; quando muito, falam a ele, mas no com ele, pois 
s o escutam enquanto ele responde s perguntas que lhe fazem.  claro que uma pesquisa como esta demanda uma metodologia - que no cabe aqui discutir5 - que implique 
aquele reconhecimento acima referido, o do Povo como sujeito do conhecimento de si mesmo.  evidente que a questo fundamental para uma rede de bibliotecas populares, 
ora estimulando programas de educao ou de cultura popular (de que fizessem parte atividades no campo da alfabetizao de adultos, da educao sanitria, da pesquisa, 
do teatro, da formao tcnica, da poltica em suas relaes com a f), ora surgindo em resposta a exigncias populares provocadas por uma esforo de cultura popular, 
 poltica. A forma como atua uma biblioteca popular, a constituio do seu acervo, as atividades que podem ser desenvolvidas no seu interior, e a partir dela, tudo 
isso, indiscutivelmente, tem que ver com tcnicas, mtodos, processos, previses oramentrias, pessoal auxiliar, mas, sobretudo, tudo isso tem que ver com uma certa 
poltica cultural. No h neutralidade aqui tambm. Como aqui tambm vamos encontrar a ingenuidade no astuta de que falei, a mesma ingenuidade puramente ttica 
e a mesma criticidade. A mesma compreenso mgica da palavra escrita, o mesmo elitismo reacionrio minimizador do Povo, mas o mesmo esprito crtico- democrtico 
de que tanto precisamos neste pas de to fortes tradies de arbtrio. O Brasil foi "inventado" de cima para baixo, autoritariamente. Precisamos reinvent- lo em 
outros termos.

5

A este propsito, ver Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido, Paz e Terra, e "Criando mtodos de pesquisa alternativa  Aprendendo a faze-la atravs da ao", In: 
Brando, Carlos Rodrigues (org.) Pesquisa Paticipante . So Paulo, Editora Brasiliense, 1981.

#O povo diz a sua palavra a sua alfabetizao em So Tom e Prncipe * PRIMEIRA PARTE
Mais uma vez, ao longo dos anos, me ponho em frente de pginas em branco para escrever sobre o processo alfabetizao de adultos. Parece- me interessante salientar 
que o fato de haver tratado vrias vezes este assunto no mata em mim nem sequer diminui um certo estado de esprito, tpico de quem discute pela primeira vez uma 
tema.  que para mim, no h assuntos encerrados.  por isso que penso e re-penso o processo de alfabetizao como quem est sempre diante de uma novidade, mesmo 
que, nem toda vez tenha novidades sobre que falar. Mas, ao pensar e ao re- pensar a alfabetizao, penso ou re-penso a prtica em que me envolvo. No penso ou re- 
penso o puro conceito, desligado do concreto, para, em seguida, descrev- lo. Neste artigo, falarei da alfabetizao de adultos no cont exto da Republica Democrtica 
de So Tom e Prncipe6 , a cujo governo venho dando, juntamente com Elza Freire, uma contribuio no campo da educao de adultos, hoje menos sistemtica do que 
trs anos atrs. Antes de entrar na discusso de alguns pontos centrais marcam a experincia de alfabetizao de adultos em Tom e Prncipe, me parece importante 
fazer algumas raes em torno de como venho entendendo e vivendo relaes entre mim, enquanto assessor, e o governo assessorado. Para ns, porque esta  tambm a 
posio de o assessor no  uma figura neutra, fria, descomprometida, disposta sempre a responder tecnicamente s solicitaes que lhe sejam feitas. Para ns, pelo 
contrrio, o assessor (ou assessora)  um poltico e sua prtica, no importa no campo em que se d,  poltica tambm. Por isso  que, do nosso ponto de vista, 
se torna indispensvel uma concordncia em torno de aspectos fundamentais entre o assessor e o governo assessorado. Me seria impossvel, por exemplo, dar uma colaborao, 
por mnima que fosse, a uma campanha de alfabetizao de adultos promovida por um governo antipopular. O meu respeito aos nacionais, a cujo governo assessoro, o 
meu cuidado para que a minha colaborao se tome uma invaso disfarada pressupem um terreno comum em que caminhamos o governo e eu.  neste terreno comum, nesta 
identidade de opes polticas, provveis e salutares divergncias, que minha prtica me tornando um companheiro dos nacionais e no um puro aplicador de frmulas 
impossivelmente neutras. Eu no poderia assessorar um governo que, em nome da primazia da "aquisio" de tcnicas de ler e de escrever palavras por parte dos alfabetizandos, 
exigisse de mim ou simplesmente sugerisse que eu fizesse a dicotomia entre a leitura do texto, leitura do contexto. Um governo para quem a "leitura" do concreto, 
o desvelamento do mundo no so um direito do povo, que, por isso mesmo, deve ficar reduzido  leitura mecnica da palavra.  exatamente este aspecto importante 
- o da relao dinmica entre a leitura da
*

Este artigo, que foi primeiramente publicado num nmero especial da Harvard Educational Review, em fevereiro de 1981, nmero que tratou do tema "Education as Transformation: 
Identity, Change and Development", aparece agora entre ns acrescido de uma segunda parte. 6 Recentemente independente do jugo colonial portugus, as ilhas de So 
Tom e Prncipe ficam no golfo da Guin, na costa ocidental da frica. A superfcie total do pas  1001km2 , tendo a ilha de So Tom 859 km2 e a Prncipe 142 km2 
. Em 1970, calculava-se a populao do pas em 73.811 pessoas. A ilha de Prncipe com 4.662 e a de So Tom com 69.149. A capital do pas, cuja populao  de 17.400 
habitantes,  a cidade de So Tom, na ilha do mesmo nome. A independncia do pas se deu a 12 de julho de 1975.

#palavra e a "leitura" da realidade - , em que nos encontramos coincidentes o governo de So Tom e Prncipe e ns, que eu gostaria de tomar como ponto central das 
minhas reflexes neste artigo. Todo o esforo que vem sendo feito em So Tom e Prncipe na prtica da alfabetizao de adultos como na de ps- alfabetizao se 
orienta neste sentido7 . Os Cadernos de Cultura Popular que vm sendo usados pelos educandos como livros bsicos, quer na alfabetizao quer na ps- alfabetizao, 
no so cartilhas nem manuais com exerccios ou discursos manipuladores. Cadernos de Cultura Popular  o nome genrico que vendo sendo dado a esta srie de livros 
de que o primeiro  o da alfabetizao. Este primeiro caderno  composto de duas partes, sendo a segunda uma introduo  ps-alfabetizao. Como reforo a este 
primeiro caderno h um outro de exerccios, chamado Praticar para Aprender. O Segundo Caderno de Cultura Popular, com o qual se inicia ou se pretende iniciar a ps-alfabetizao, 
 um livro de textos, escritos em linguagem simples, jamais simplista, que uma temtica ampla e variada, ligada, toda ela, ao momento atual do pas. O que se pretende 
com estes textos - entre os quais sero alguns transcritos na Segunda Parte deste trabalho -  que eles se entreguem  curiosidade crtica dos educandos e no que 
sejam lidos mecanicamente. A linguagem dos textos  desafiadora e no sloganizadora. O que se quer  a participao efetiva do povo enquanto sujeito, na reconstruo 
do pas, a servio de que a alfabetizao e a ps8 alfabetizao se acham . Por isso mesmo os cadernos no so nem poderiam ser livros neutros.  que, na verdade, 
o contrrio da manipulao nem  neutralidade impossvel nem o espontanesmo. O contrrio da manipulao, como do espontanesmo,  a participao crtica e democrtica 
dos educandos no ato de conhecimento de que so tambm sujeitos.  a participao crtica e criadora do povo no processo de reinveno de sua sociedade, no caso 
a sociedade so- tomense, recm-independente do jugo colonial, que h tanto tempo a submetia. Esta participao consciente na reconstruo da sociedade, participao 
que se pode dar nos mais diferentes setores da vida nacional e em nveis diferentes, demanda, necessariamente, uma compreenso crtica do momento de transio revolucionria 
em que se acha o pas. Compreenso crtica que se vai gerando na prtica mesma de participar e que deve ser incrementada pela prtica de pensar a prtica. Neste 
sentido, a alfabetizao e a ps- alfabetizao, atravs das palavras e dos temas geradores numa e noutra, no podem deixar de propor aos educandos uma reflexo 
crtica sobre o concreto, sobre a realidade nacional, sobre o momento presente - o da reconstruo,

7

Isto no significa, porm, que seja fcil viver, em termos crticos, uma tal relao entre a leitura da palavra e da "leitura" da realidade, numa sociedade que se 
experimenta historicamente como So Tom e Prncipe. A forte tradio colonial, que no poderia deixar de estar presente  sua prtica social, bem viva ainda muitos 
aspectos,  um obstculo quele tipo de "leitura". 8 H um Terceiro Caderno de Cultura Popular, sobre o ensino de aritmtica; um Quarto, sobre sade; um Quinto, 
eu se constitui por uma srie de textos com os quais se aprofundam as anlises de alguns temas discutidos no Segundo, j referido. No momento, dois mais esto sendo 
impressos. Um deles  um repertrio de estrias, de lendas, que expressam a alma popular. O outro, uma introduo ao estudo das riquezas naturais do pas. O Quinto 
e o Sexto cadernos, este ltimo sendo impresso, so de autoria do professor chileno Antonio Fandez, que vem dando sua contribuio ao pas atravs do Conselho Mundial 
de Igrejas.

#com seus desafios responder e suas dificuldades a superar.  preciso, na verdade, que a alfabetizao de adultos e a ps- alfabetizao, a servio da reconstruo 
nacional, contribuam para que o povo, tomando mais e mais a sua Histria nas mos, se refaa na feitura da Histria. Fazer a Histria  estar presente nela e no 
simplesmente nela estar representado9 . Pobre do povo que aceita, passivamente, sem o mais mnimo sinal de inquietao, a noticia segundo a qual, em defesa de seus 
interesses, "fica decretado que, nas teras- feiras, se comea a dizer boa noite a partir das duas horas da tarde". Este ser um povo puramente representado, j 
no presente na Histria. Quanto mais conscientemente faa a sua Histria, tanto mais o povo perceber, com lucidez, as dificuldades que tem a enfrentar, no domnio 
econmico, social e cultural, no processo permanente da sua libertao. Na medida em que a reconstruo nacional  a continuidade da luta anterior, do esforo anterior 
em busca da independncia,  absolutamente indispensvel que o povo todo assuma, em nveis diferentes, mas todos importantes, a tarefa de refazer a sua sociedade, 
refazendo- se a si mesmo tambm. Sem esta assuno da tarefa maior - e de si mesmo na assuno da tarefa -, o povo abandonar a pouco e pouco a sua participao 
na feitura da Histria. Deixar, assim, de estar presente nela e passar a ser simplesmente nela representado. Este  um desafio histrico que o perodo atual de 
transio coloca, de um lado, ao povo de So Tom e Prncipe, e, de outro,  lealdade revolucionria de sua lide- rana, e eu espero que ambos - o povo e a sua liderana 
- respondam corretamente a este desafio. A mobilizao e a organizao popular, em termos realmente participatrios, que so em si, j, tarefas eminentemente poltico- 
pedaggicas, s quais a alfabetizao e a ps-alfabetizao no poderiam estar alheias, so meios de resposta quele desafio. Como meio de resposta a ele,  a informao 
formadora e no sloganizante, domesticadora, em torno dos mais mnimos problemas que tenham que ver com o destino do pas. A alfabetizao de adultos enquanto ato 
poltico e ato de conhecimento, comprometida com o processo de aprendizagem da escrita e da feitura da palavra, simultaneamente com a "leitura" e a "reescrita" da 
realidade, e a ps- alfabetizao, enquanto continuidade aprofundada do mesmo ato de conhecimento iniciado na alfabetizao, de um lado, so expresses da reconstruo 
nacional em marcha; de outro, prticas a impulsionadoras da reconstruo. Uma alfabetizao de adultos que, em lugar de propor a discusso da realidade nacional 
e de suas dificuldades, em lugar de colocar o problema da participao poltica do povo na reinveno da sua sociedade, estivesse girando em volta dos ba- be- bi- 
bo- bu, a que juntasse falsos discursos sobre o pas - , como tem sido to comum em tantas campanhas - , estaria contribuindo para que o povo fosse puramente representado 
na sua Histria. Em So Tom e Prncipe, pelo contrrio, o que vem interessando  o desvelamento da realidade. A educao com que o governo vem se compromentendo 
 a que desoculta e no a que esconde em funo dos interesses dominantes. A compreenso do processo do trabalho, do ato produtivo em sua complexidade, da
9

Saliento, com satisfao, que as expresses estar presente na Histria e nela simplesmente estar representado, no sentido usado no texto, escutei de meu Maurcio 
Tragtenberg, num debate de que participei na PUC, em 1981.

#maneira como se organiza e desenvolve a produo, a necessidade de uma formao tcnica do trabalhador, formao, porm, que no se esgote num especialismo estreito 
e alienante; a compreenso da cultura e do seu papel, tanto no processo de libertao quanto no da reconstruo nacional; o problema da identidade cultural, cuja 
defesa no deve significar a rejeio ingnua  contribuio de outras culturas, tudo isso so temas fundamentais que se achara referidos  maioria das palavras 
que constituem o programa da alfabetizao. Temas fundamentais que vm sendo debatidos, toda vez que possvel10 , de forma introdutria, na etapa da alfabetizao, 
e que se acham retomados e propostos de modo problematizador nos textos que compem os Cadernos de Cultura Popular, empregados na ps- alfabetizao. No momento 
em que, escrevendo este artigo, a pouco e pouco, vou enchendo as pginas em branco  minha disposio, no posso deixar de pensar em So Tom, sobretudo porque  
a seu contexto que o que escrevo agora se acha referido. Me revejo, sem nenhum esforo de memria, visitando os Crculos de Cultura, da zona rural ou urbana, acompanhado 
sempre de meus amigos, os coordenadores da campanha ou do programa de alfabetizao de adultos1 1 . So visitas em que, juntos, vamos anotando os aspectos mais positivos 
da prtica poltico- educativa dos animadores, ao lado, tambm, de algumas falhas, em que vamos observando o desenvolvimento intelectual dos grupos, sua capacidade 
de ler os textos e de compreender a realidade, sua curiosidade. Entre as inmeras recordaes que guardo da prtica dos debates nos Crculos de Cultura de So Tom, 
gostaria de referir- me agora a uma que me toca de modo especial. Visitvamos um Crculo numa pequena comunidade pesqueira chamada Monte Mrio. Tinha- se como geradora 
a palavra bonito, nome de um peixe, e como codificao um desenho expressivo do povoado, com sua vegetao, as suas casas tpicas, com barcos de pesca ao mar e um 
pescador com um bonito  mo. O grupo de alfabetizandos olhava em silncio a codificao. Em certo momento, quatro entre eles se levantaram, como se tivessem combinado, 
e se dirigiram at a parede em que estava fixada a codificao (o desenho do povoado). Observaram a codificao de perto, atentamente. Depois, dirigiram se  janela 
da sala onde estvamos. Olharam o mundo l fora. Entreolharam- se, olhos vivos, quase surpresos, e, olhando mais uma vez a codificao, disseram: " Monte Mrio. 
Monte Mrio  assim e no sabamos". Atravs da codificao, aqueles quatro participantes do Crculo "tornavam distncia" do seu mundo e o re- conheciam. Em certo 
sentido, era como se estivessem "emergindo" do seu mundo, "saindo" dele, para melhor conhec- lo. No Crculo de Cultura, naquela tarde, estavam tendo uma experincia 
diferente: "rompiam" a sua "intimidade" estreita com Monte Mrio e punham se diante do pequeno mundo da sua quotidianidade como sujeitos observadores. No Crculo 
de Cultura, enquanto contexto que costumo chamar terico, esta atitude de sujeito curioso e crtico  o ponto de partida fundamental a comear na alfabetizao. 
O exerccio desta atividade critica, na anlise da prtica social, da realidade em
10

 importante sublinhar o toda vez que possvel, no texto, no sentido de chamar a ateno do leitor para as limitaes, de resto compreensveis, dos animadores culturais 
no desenvolvimento de uma tarefa como esta. 11 De acordo com informaes recentes que me foram dadas pela jovem educadora Kimiko Nakamo, que vem dando uma excelente 
contribuio ao pas, no quadro do IDAC esto funcionando 394 crculos de cultura com a participao de perto de 14 mil alfabetizandos. Trabalhadores rurais e urbanos, 
com 704 animadores culturais e 25 coordenadores do departamento de alfabetizao de adultos. O programa prev a superao do analfabetismo em quatro anos.

#processo de transformao possibilita aos alfabetizandos, de um lado, aprofundar o ato de conhecimento na ps- alfabetizao; de outro, assumir diante de sua quotidianidade 
uma posio mais curiosa. A posio de quem se indaga constantemente em torno da prpria prtica, em torno da razo de ser dos fatos em que se acha envolvido. Na 
etapa da alfabetizao, o que se pretende no  ainda uma compreenso profunda da realidade que se est analisando, mas desenvolver aquela posio curiosa referida 
acima; estimular a capacidade critica dos alfabetizandos enquanto sujeitos do conhecimento, desafiados pelo objeto a ser conhecido.  exatamente a experincia sistemtica 
desta relao que  importante. A relao do sujeito que procura conhecer com o objeto a ser conhecido. Relao que inexiste toda vez que, na prtica, o alfabetizando 
 tomado como paciente do processo, puro recipiente da palavra do alfabetizador. Neste caso, ento, no diz a sua palavra. Obviamente, nem tudo so flores no desenvolvimento 
de um trabalho como este, num pas pobre, pequeno, recm- independente do jugo colonial, tendo seu povo e sua liderana de enfrentar um sem-nmero de dificuldades, 
entre elas as decorrentes da flutuao do preo internacional do seu principal produto, o cacau; tendo de superar legados fortemente negativos de sculos de colonialismo, 
entre os quais a escassez de quadros nacionais, hoje ainda quantitativamente insuficientes para as tarefas que a reconstruo nacional demanda. A escassez de quadros 
e de recursos materiais, refletindo- se necessariamente no plano da alfabetizao de adultos, teria de constituir- se em obstculo no apenas a sua programao mas 
tambm a seu desenvolvimento. No foi por outra razo que a exministra da Educao, Maria Amorim, optou por um programa humilde mas realista,  altura das reais 
possibilidades do pas. Um programa a ser posto em prtica durante quatro anos, dentro dos quais se far a superao do analfabetismo em So Tom e Prncipe, com 
o povo dizendo a sua palavra.

SEGUNDA PARTE
Ao longo da Primeira Parte deste artigo foi dito vrias vezes que os materiais elaborados quer para a fase de alfabetizao quer para a de ps-alfabetizao se caracterizavam 
por serem materiais desafiadores e no domesticadores. Numa tentativa de exemplificar o afirmado, sero transcritas aqui partes do Caderno de Exerccios, Praticar 
para Aprender, da fase de alfabetizao, e alguns textos do Segundo Caderno de Cultura Popular, da etapa da ps- alfabetizao1 2 . A primeira pgina de Praticar 
para Aprender  composta de duas codificaes (duas fotografias): uma, de uma das lindas enseadas de So Tom, com um grupo de jovens nadando; a outra, numa rea 
rural, com um grupo de jovens trabalhando. Ao lado da fotografia dos jovens nadando est escrito: " nadando que se aprende a nadar". Ao lado da fotografia dos jovens 
trabalhando est escrito: " trabalhando que se aprende a trabalhar". E, no fim da pgina: "Praticando, aprendemos a praticar
12

Sobre uma anlise pormenorizada de ambos estes Cadernos, como do primeiro que no  discutido neste texto, ver Freire, Paulo, "Quatro cartas aos animadores de Crculos 
de Cultura de So Tom e Prncipe". In: Brando, Carlos (org.). A questo poltica da educao popular. So Paulo, Brasiliense, 1980.

#melhor". No me parece necessrio, aqui, insistir demasiado no que esta prime ira pgina do Caderno de Exerccios, que comea a ser usado quando os alfabetizandos 
j so capazes de ler pequenas sentenas, pode oferecer a educadores e educandos como reflexo em torno da importncia da prtica para o ato de conhecimento. Este 
momento  mais um em que se pode reforar a idia fundamental de que o povo tem um saber na medida mesma em que, participando de uma prtica que  social, faz coisas. 
Reforando a importncia da prtica, se diz na segunda pgina do Caderno: Se O praticando que se aprende a nadar, Se O praticando que se aprende a trabalhar,  praticando 
tambm que se aprende a ler e a escrever. Vamos praticar para aprender e aprender para praticar melhor. Vamos ler Povo Sade Matabala 1 3 Rdio Vamos escrever O 
espao que se segue, em branco,  para uso dos alfabetizandos. Cabe ao educador, aproveitando a prpria maneira como o Caderno foi concebido, desafiar os educandos 
a que escrevam o que queiram e o que possam com as palavras sugeridas. Na pgina 7, em um texto um pouco maior, se volta  questo da prtica: Antnio, Maria, Pedro 
e Ftima sabem ler e escrever. Aprenderam a ler praticando a leitura. Aprenderam a escrever praticando a escrita.  praticando que se aprende. Vamos escrever. Mais 
uma vez, o espao em branco como convite aos alfabetizandos para que se arrisquem a escrever. Em todo o Caderno, do comeo ao fim, se problematizam constantemente 
os alfabetizandos para que escrevam e leiam praticando a escrita e a leitura. Se, em lugar nenhum  possvel escrever sem praticar a escrita, numa cultura de memria 
preponderantemente oral como a so- tomense, um programa de alfabetizao precisa, de um lado, respeitando a cultura como est sendo no momento, estimular a oralidade 
dos alfabetizandos nos debates, no relato de estrias, nas anlises dos fatos; de outro, desafi - los a que comecem tambm a escrever. Ler e escrever como momentos 
inseparveis de um mesmo processo - o da compreenso e o do domnio da lngua e da linguagem.

13

Matabala  uma espcie de batata bastante presente na dieta do povo so-tomense.

#Na pgina 11 se prope um texto mais complexo, mas no extenso, que trata de aspectos da vida colonial e do momento atual da reconstruo nacional. O texto  precedido 
de algumas palavras que envolvem temas centrais da reconstruo nacional. A pgina comea assim: Vamos ler Escola Roa1 4 Terra Plantar Produto Antes da Independncia, 
a maioria de nosso Povo no tinha escolas. As roas, com suas terras de plantar, pertenciam aos colonizadores. O produto de nosso trabalho era deles tambm. Com 
a Independncia, tudo est ficando diferente. Temos mais escolas para nossas crianas e o Povo comeou a estudar. Vamos escrever. Considerando ainda o carter oral 
da cultura, no estado em que se encontra, sugere-se aos animadores que, no apenas com relao a este texto, mas com relao a todos, faam uma leitura primeira, 
em voz alta, pausadamente, que deve ser seguida silenciosamente pelos alfabetizandos. Em continuao, que estes prossigam na sua leitura silenciosa durante um certo 
momento aps o qual se comear, de um a um, a leitura em voz alta. Qualquer que seja o texto, terminada a sua leitura,  indispensvel a discusso em torno dele. 
No esforo de continuar desafiando os alfabetizandos a ler criticamente e a escrever, ao mesmo tempo que se prossegue no estmulo  sua oralidade, se lhes prope 
o seguinte exerccio, na pgina 12: Praticar sempre para aprender e aprender para praticar melhor. Vamos ler Enxada Sementeira Fonte Conhecimento O trabalho produtivo 
 fonte de conhecimento. Com a enxada preparamos os campos para a sementeira e ajudamos a construir um pas novo. Nossos filhos e filhas devem aprender trabalhando. 
Nossas escolas devem ser escolas de trabalho. Tente escrever sobre o texto que acaba de ler.
14

Unidade de produo. Fazenda de cacau. Havia ao todo, antes da independncia, umas 75 roas, cujos proprietrios em regra viviam em Lisboa. O primeiro ato do governo 
independente foi, em praa pblica, nacionalizar as roas.

#Escreva igual a como fala.  praticando que se aprende. Depois de alguns exerccios que introduzem os verbos ser, estar e ter, no tempo presente do modo indicativo, 
mas sem nenhuma definio do que  verbo e nenhuma considerao terica a propsito de seus modos e de seus tempos e pessoas, se chega  pgina 17 com mais um desafio 
 criticidade dos alfabetizandos. Se se observa bem o Caderno de Exerccios, de que venho agora transcrevendo partes, se nota como o desafio  percepo crtica 
dos alfabetizandos gradualmente cresce, pgina a pgina, bem como o chamamento a que se experimentem na escrita. Se, porm, a palavra escrita  estranha ou quase 
estranha em um dado momento de uma cultura, introduzi-la antes de ou concomitantemente a transformaes infra- estruturais que,com o tempo, passariam a exigi- la, 
no  tarefa to fcil. s vezes, contudo, inadivel. Vejamos a pgina 17: Todos ns sabemos alguma coisa. Todos ns ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos 
sempre 1 5 . Vamos ler, pensar e discutir Trabalhando com afinco, produzimos mais. Produzindo mais, nas terras que so nossas, criamos riquezas para a felicidade 
do Povo. Com o MLSTP1 6 estamos a construir uma sociedade em que todos participam para o bem estar de todos. Precisamos estar vigilantes contra aqueles que pretendem 
comear de novo o sistema de explorao das maiorias por uma minoria dominante. Agora tente escrever sobre o que leu e discutiu. Nas pginas 20 e 21, h textos que 
exemplificam o uso de pronomes pessoais subjetivos e objetivos sem que se faa, contudo, nenhuma aluso a princpios gramaticais. Pgina 20: Vamos ler Eu me preocupo 
com o nosso Pas. Carlos deu um livro a Maria e outro a mim. Dois dias depois, Carlos veio  roa falar comigo. Eu sou teu amigo, gosto de ti. Leva contigo este 
livro que te dou. Ele desperta cedo para o trabalho. s vezes, fala consigo mesmo, de si para si. Ela tambm fala consigo mesma. Ele e ela pensam no futuro de seu 
povo ao mesmo tempo que trabalham para lazer o futuro. Todas as vezes em que o vejo e em que a vejo lhes falo dos estudos. Eu - me - a mim - de mim - para mim - 
comigo Tu - te - a ti - para ti - contigo
15 16

No rosto da pgina 16 est escrito: "Ningum ignora tudo  Ningum sabe tudo". Movimento pela libertao de So Tom e Prncipe.

#Ele - Ela - se - a si - de si - para si - consigo - lhe - o - a Escreva frases com me - te - comigo - a ti - a mim Pgina 21: Vamos ler Ns nos tornamos independentes 
A custa de muitos sacrifcios. Com unidade, disciplina e trabalho estamos a consolidar nossa independncia. Repelimos quem est contra ns e acolhemos aqueles e 
aquelas que demonstram sua solidariedade conosco. Vs, colonialistas, vos enganastes, ao pensar que vosso poder de explorar era eterno. Para vs, era impossvel 
que a fraqueza dos explorados se tornasse fora na luta contra vosso poder. Levastes convosco quase tudo o que era nosso, mas no pudestes levar convosco a nossa 
vontade determinada de ser livres. Maria, Julieta, Jorge e Carlos, eles e ela s se esforam no trabalho para aumentar a produo. Trazem sempre consigo a certeza 
da vitria. Ns - nos - conosco Vs - vos - convosco Eles - Elas - se - a si - de si - para si - consigo - lhes - os - as Escreva frases com nos - lhes - conosco 
Na pgina 22, se encontra integralmente transcrita uma das muitas estrias populares que, em culturas cuja memria est sendo ainda preponderantemente oral, passam 
de gerao a gerao e tm um papel pedaggico indiscutvel. Parte do que se pode considerar a dimenso terica da educao que se d nessas culturas se realiza 
atravs dessas estrias em cujo corpo o uso das metforas  uma das riquezas da linguagem popular17 . A educao popular no pode estar alheia a essas estrias que 
no refletem apenas a ideologia dominante, mas, mesclados com ela, aspectos da viso de mundo das massas populares. Na verdade, esta viso de mundo no  pura reproduo 
daquela ideologia. Depois da leitura da estria da pgina 22, com que se reconhece, na forma escrita, o que j se conhecia na oralidade, se prope, na pgina 23, 
como desafio aos alfabetizandos, para que escrevam tambm o seguinte texto: O camarada ou a camarada pode agora fazer mais do que j fez. Pode tambm escrever pequenas 
estrias. Mas, antes de escrever, pense primeiro na sua prtica. Pense no trabalho lado a lado com outros camaradas. Pense como lavram a terra, como semeiam e como 
colhem. Pense nos instrumentos que usam nas roas ou nas fbricas.
17

A este propsito, ver o excelente artigo de Swert, D. Merril. "Proverbs, Parables and Metaphors  Aplying Freire's Concept of Codification to frica". In: Convergence, 
v. XIV, n 1, 1981. An International Journal of Adult Education. International Council for Adult Education. P.O. Box 250, Station F. Toronto. Canad  M 4y 2 L 5.

#Se o camarada pesca, pense nas horas que leva dentro do mar, nas guas de navegar, longe da praia, longe das terras de cultivar. Pense nas estrias dos pescadores. 
Pense nas estrias que ouviu contar do tempo de nossos avs. Depois, tente escrever igualzinho a como fala. Quando escrever a primeira estria, vai ver que pode 
escrever a segunda, a terceira, etc.  praticando que se aprende Vamos praticar Escreva sua Primeira Estria. Na pgina seguinte se volta a insistir junto aos alfabetizandos 
que escrevam e sugerese a criao, no caso em que o faam, de antologias de estrias populares. Veja- se o texto: Se os camaradas e as camaradas escreverem muitas 
estrias, um dia vamos fazer um livro grande com estrias contadas por nosso Povo. Estrias que falam do nosso passado, da luta do nosso Povo, de nossa resistncia 
ao colonizador. Estrias que falam de nossas tradies, das danas, das msicas, das festas. Estrias que falam da luta de hoje, da reconstruo nacional. Estrias 
que so pedaos de nossa Histria. Finalmente, o Caderno de Exerccios chega a seu trmino com o seguinte texto: Os camaradas e as camaradas chegaram ao fim deste 
Caderno de Exerccios. E chegaram ao fim tambm do Primeiro Caderno de Cultura Popular. Praticando a leitura e praticando a escrita os camaradas e as camaradas aprenderam 
a ler e a escrever ao mesmo tempo em que discutiram assuntos de interesse de nosso Povo. No aprenderam a ler decorando ou memorizando babe- bi-bo- bu; ta- t e-ti- 
to- tu, para depois simplesmente repetir. Por isso, enquanto aprendiam a ler e a escrever, os camaradas e as camaradas discutiram sobre a reconstruo nacional, 
sobre a produo, sobre a sade; discutiram sobre a unidade, a disciplina e o trabalho do nosso Povo na reconstruo nacional. Conversaram sobre o MLSTP, sobre o 
seu papel de vanguarda do Povo. Agora, juntos n ovamente, vamos dar um passo em frente na procura de saber mais, sem esquecer nunca que  praticando que se aprende. 
Vamos conhecer melhor o que j conhecemos e conhecer outras coisas que ainda no conhecemos. Todos ns sabemos alguma coisa Todos ns ignoramos alguma coisa Por 
isso, aprendemos sempre. A busca de conhecer mais continua na luta que continua. A vitria  nossa. Vejamos agora o Segundo Caderno de Cultura Popular Nosso Povo 
Nossa Terra Textos para Ler e Discutir (Iniciao  Gramtica) Antes de iniciar a anlise ou mais precisamente a transcrio de textos deste Caderno

#com alguns comentrios, me parece importante salientar como a prtica alterou os planos que tnhamos com relao ao Caderno de Exerccios e ao Segundo Caderno de 
Cultura Popular. Enquanto o primeiro tinha sido concebido como um auxiliar do alfabetizando, reforando o Primeiro Caderno na fase da alfabetizao, o Segundo Caderno 
fora pensado como o livro bsico da primeira etapa da ps- alfabetizao. Com o tempo se percebeu que este ltimo papel caberia ao Caderno de Exerccios, enquanto 
o Segundo Caderno passaria a ser usado num nvel mais adiantado da psalfabetizao, ao lado dos outros Cadernos referidos no p da pgina 41 8 . O Segundo Caderno 
comea com a seguinte

INTRODUO
Com o Primeiro Caderno de Cultura Popular e com o Caderno de Exerccios aprendeste a ler na prtica da leitura. Aprendeste a escrever na prtica da escrita. Praticaste 
a leitura e a escrita ao mesmo tempo que tiveste tambm a prtica de discutir assuntos de interesse do nosso Povo. Para ns, no tinha sentido ensinar ao nosso Povo 
um puro b- a-b. Quando aprendemos a ler e a escrever, o importante  aprender tambm a pensar certo. Para pensar certo devemos pensar sobre a nossa prtica no trabalho. 
Devemos pensar sobre a nossa vida diria Quando aprendemos a ler e a escrever, o importante  procurar compreender melhor o que foi a explorao colonial, o que 
significa a nossa Independncia. Compreender melhor a nossa luta para criar uma sociedade justa, sem exploradores nem explorados, uma sociedade de trabalhadores 
e trabalhadoras. Aprender a ler e a escrever no  decorar "bocados" de palavras para depois repeti-los. Com este Segundo Caderno de Cultura Popular vais poder reforar 
o que j sabes e aumentar os teus conhecimentos, que so necessrios  luta de reconstruo nacional. Para isto,  preciso que te esforces e que trabalhes com disciplina. 
Se no sabes o significado de uma ou de outra palavra que encontres nos textos, consulta o vocabulrio no fim deste Caderno. Se a palavra procurada no estiver l, 
pergunta a um camarada ou fala com o animador cultural, teu camarada tambm. As palavras com que se introduz o vocabulrio so igualmente palavras de desafio e no 
de acomodao: Neste vocabulrio encontras o significado de algumas palavras e de grupos de palavras que aparecem nos diferentes textos deste Caderno. Ele  uma 
ajuda de que te podes servir no teu esforo de compreenso dos textos que foram escritos para ser estudados e no para ser simplesmente lidos, como se fossem puras 
"lies de leitura". O vocabulrio sozinho no resolve as tuas dificuldades. Tu tens de trabalhar para compreender o prprio vocabulrio. No  por acaso que o primeiro 
tema tratado no Segundo Caderno de Cultura Popular  o ato de estudar, apresentado em duas partes, como ocorre com a maioria deles, entre os quais alguns so discutidos 
em trs partes. Parecia necessrio comear este Caderno provocando um debate em torno do ato de estudar cuja significao pudesse ser apreendida do relato de uma 
estria simples e de trama provvel.
18

Sobre como trabalhar com este Caderno, mais uma vez ver Freire, Paulo, "Quatro cartas aos animadores de Crculo de So Tom e Prncipe".In: Brando, Carlos (org.). 
A questo poltica da educao popular. So Paulo, Brasiliense, 1980.

#O ATO DE ESTUDAR A
Tinha chovido muito toda a noite. Havia enormes poas de gua nas partes mais baixas do terreno. Em certos lugares, a terra, de to molhada, tinha virado lama. s 
vezes, os ps apenas escorregavam nela. s vezes, mais do que escorregar, os ps se atolavam na lama at acima dos tornozelos. Era difcil andar. Pedro e Antnio 
estavam transportando numa camioneta cestos cheios de cacau para o stio onde deveriam secar. Em certa altura, perceberam que a camioneta no atravessaria o atoleiro 
que tinham pela lente. Pararam. Desceram da camioneta. Olharam o atoleiro, que era um problema para eles. Atravessaram os dois metros de lama, defendidos por suas 
botas de cano longo. Sentiram a espessura do lamaal. Pensaram. Discutiram como resolve ro problema. Depois, com a ajuda de algumas pedras e de galhos secos de rvores, 
deram ao terreno a consistncia mnima para que as rodas da camioneta passassem sem se atolar. Pedro e Antnio estudaram. Procuraram compreender o problema que tinham 
a resolver e, em seguida, encontraram uma resposta precisa. No se estuda apenas na escola. Pedro e Antnio estudaram enquanto trabalhavam. Estudar  assumir uma 
atitude sria e curiosa diante de um problema.

O ATO DE ESTUDAR B
Esta atitude sria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fios caracteriza o ato de estudar. No importa que o estudo seja feito no momento e no lugar 
do nosso trabalho, como no caso de Pedro e Antnio, que acabamos de ver. N o importa que o estudo seja feito noutro focal e noutro momento, como o estudo que fazemos 
no Crculo de Cultura. Em qualquer caso, o estudo exige sempre esta atitude sria e curiosa na procura de compreender as coisas e os fatos que observamos. Um texto 
para ser lido  um texto para ser estudado. Um texto para ser estudado  um texto para ser interpretado. No podemos interpretar um texto se o lemos sem ateno, 
sem curiosidade; se desistimos da leitura quando encontramos a primeira dificuldade. Que seria da produo de cacau naquela roa se Pedro e Antnio tivessem desistido 
de prosseguir o trabalho por causa do lamaal? Se um texto s vezes  difcil, insiste em compreend- lo. Trabalha sobre ele como Antnio e Pedro trabalharam em 
relao ao problema do lamaal. Estudar exige disciplina. Estudar no O fcil porque estudar  criar e recriar  no repetir o que os outros dizem. Estudar  um 
dever revolucionrio! Parecem bvias as preocupaes que este texto sobre o ato de estudar revela - a ele combater, por exemplo, a posio ideolgica, por isso mesmo 
nem sempre explicitada, de que s se estuda na escola. Da que seja ela, a escola, considerada, deste ponto de vista, como a matriz do conhecimento. Fora da escolarizao 
no h saber ou o saber que existe fora dela  tido como inferior sem que tenha nada que ver com o rigoroso

#saber do intelectual. Na verdade, porm, este saber to desdenhado, "saber de experincia feito", tem de ser o ponto de partida em qualquer trabalho de educao 
popular orientado no sentido da criao de um conhecimento mais rigoroso por parte das massas populares. Enquanto expresso da ideologia dominante, este mito penetra 
as massas populares provocando nelas, s vezes, autodesvalia por se sentirem gente de nenhuma ou de muito pouca "leitura"1 9 . Se faz preciso, ento, enfatizar a 
atividade prtica na realidade concreta (atividade a que nunca falta uma dimenso tcnica, por isso, intelectual, 2 0 por mais simples que seja) como geradora de 
saber. O ato de estudar, de carter social e no apenas individual, se d a tambm, independentemente de estarem seus sujeitos conscientes disto ou no. No fundo, 
o ato de estudar, enquanto ato curioso do sujeito diante do mundo,  expresso da forma de estar sendo dos seres humanos, como seres sociais, histricos, seres fazedores, 
transformadores, que no apenas sabem mas sabem que sabem.  necessrio salientar tambm que esta curiosidade sria em face do objeto ou do fato em observao, ao 
exigir de ns a compreenso do objeto, que no deve ser s descrito em sua aparncia, nos leva  procura da razo de ser do objeto ou do fato. Uma outra preocupao 
que se encontra neste texto sobre o ato de estudar e acompanha o Caderno inteiro  a que, se refere ao direito que o Povo tem de conhecer melhor o que j conhece 
em razo de sua prtica (compreenso mais rigorosa dos fatos parcialmente apreendidos e explicados) e de conhecer o que ainda no conhece. Neste processo, no se 
trata propriamente de entregar ou de transferir s massas populares a explicao rigorosa ou mais rigorosa dos fatos como algo acabado, paralisado, pronto, mas contar, 
estimulando e desafiando, com a capacidade de fazer, de pensar, de saber e de criar das massas populares. "Se est persuadido de que una verdad es fecunda", diz 
Gramsci, "slo cuando se ha hecho un esfuerzo para conquistaria. Que ella no existe en si y por si, sino que ha sido una conquista dei espritu, que en cada indivduo 
es preciso que se reproduzca aquel estado de ansiedad que ha atravesado el estudioso antes de alc anzaria. (...) Este representar en acto a los oyentes la serie 
de es- fuerzos, los errores y los aciertos a travs de los cuales han. pasado los hombres para alcanzar el conocimiento actual, es mucho ms educativo que la exposicin 
esquemtica de este mism conocimiento. o (...)

19

A autodesvalia tende a ser superada por um sentimento de segurana e confiana na medida em que largos setores populares, mobilizando-se em torno de reinvindicaes 
que lhes so fundamentais, se organizam para concretiz-las. A partir da se sabem sabendo e exigem saber mais. Mesmo em situaes como esta, como em parte, pelo 
menos,  o caso de So Tom e Prncipe, propor uma reflexo sobre o tema  indispensvel. 20 "(...) em cualquier trabajo fsico aunque se trate del ms mecnico 
y degradado, siempre existe un mnimo de actividad intelectual creadora". Gramsci, Antonio. Cuadernos de la Carcel: los intectuales y la organizacin de la cultura 
. Mxico, D. F., Juan Pablos Editor, 1975, p.14.

#La enseanza, desarrollada de esa manera, se convierte en un acto de liberacin."2 1

O prximo tema tratado  a

RECONSTRUO NACIONAL A
A reconstruo nacional  o esforo no qual o nosso Povo est empenhado para criar uma sociedade nova. Uma sociedade de trabalhadores. Mas, repara, se dissemos que 
temos de criar a sociedade nova  porque ela no aparece por acaso. Por isso, a reconstruo nacional  a luta que continua. Produzir mais nas roas e nas fbricas, 
trabalhar mais nos servios pblicos  lutar pela reconstruo nacional. Ningum em So Tom e Prncipe tem o direito de cruzar os braos e esperar que os outros 
faam as coisas por ele. Sem produo nas roas e nas fbricas, sem trabalho dedicado nos servios pblicos, no criaremos a nova sociedade.

RECONSTRUO NACIONAL B
Vimos, no texto anterior, que produzir mais nas roas, nas fbricas e trabalhar mais nos servios pblicos  lutar pela reconstruo nacional. Vimos tambm que a 
reconstruo nacional, para ns, significa a criao de uma sociedade nova, sem explorados nem exploradores. Uma sociedade de trabalhadores e de trabalhadoras. Por 
isso, a reconstruo nacional exige de ns: Unidade, Disciplina, Trabalho e Vigilncia. - Unidade de todos, tendo em vista um mesmo objetivo: A CRIAO DE UMA SOCIEDADE 
NOVA. - Disciplina na ao, no trabalho, no estudo, na vida diria. Disciplina consciente, sem a qual nada se faz, nada se cria. Disciplina na unidade, sem a qual 
se perde o trabalho. - Trabalho. Trabalho nas roas. Trabalho nas fbricas. Trabalho nos servios pblicos. Trabalho nas escolas. - Vigilncia, muita vigilncia, 
contra os inimigos internos e externos, que faro tudo o que puderem para deter a nossa luta pela criao da nova sociedade.
21

Gramsci, Antonio, citado por Broccoli, ngelo. In: Antonio Gramsci y la educacin como hegemona. Mxico, Editorial Nueva Imagen S.A., 1979, p.47.

#Um texto, por mais simples que fosse, colocando o problema da reconstruo nacional e jogando com as palavras unidade, disciplina, trabalho e vigilncia, pareceu 
absolutamente necessrio. Obviamente, o tema da reconstruo nacional ou da reinveno da sociedade so- tomense se impe pela sua atualidade. O jogo feito com as 
palavras unidade, disciplina, trabalho e vigilncia foi introduzido para, aproveitando estas palavras que aparecem em grande nmero de slogans, apresent- las num 
texto dinmico preservando ou recuperando a sua significao mais profunda, ameaada pelo carter acrtico dos clichs. Ficou claro, desde o comeo da Segunda Parte 
deste artigo, que no era inteno minha transcrever nela todo o Segundo Caderno de Cultura Popular, mas alguns de seus textos em consonncia com afirmaes feitas 
na Primeira Parte. Eis mais um deles:

TRABALHO E TRANSFORMAO DO MUNDO22 A
Pedro e Antnio derrubaram uma rvore. Tiveram uma prtica. A atividade prtica dos seres humanos tem finalidades. Eles sabiam o que queriam fazer ao derrubar a 
rvore. Trabalharam. Com instrumentos, no s derrubaram a rvore mas a desbastaram, depois de derrub-la. Dividiram o grande tronco em pedaos ou toros, que secaram 
ao sol. Em seguida, Pedro e Antnio serraram os troncos e fizeram tbuas com eles. Com as tbuas, fizeram um barco. Antes de fazer o barco, antes mesmo de derrubarem 
a rvore, eles j tinham na cabea a forma do barco que iam fazer. Eles j sabiam para que iam fazer o barco. Pedro e Antnio trabalharam. Transformaram com o seu 
trabalho a rvore e fizeram com ela um barco.  trabalhando que os homens e as mulheres transformam o mundo e, transformando o mundo, se transformam tambm.

TRABALHO E TRANSFORMAO DO MUNDO B
Pedro e Antnio fizeram o barco com as tbuas. Fizeram as tbuas com os pedaos do tronco da rvore grande que derrubaram. Quando a rvore grande foi dividida em 
pedaos, deixou de ser rvore.
22

A leitura e discusso deste texto num dos cursos de ps-graduao que coordeno na PUC provocou anlises e observaes realmente interessantes por parte dos participante. 
"Nunca se deve perder de vista", disse um deles, Cristiano Amaral Giorgi, "algo essencial para a proposta educativa: que o ponto inicial de discusso seja o trabalho 
tal como de fato  percebido e interpretado pelo grupo de trabalhadores envolvidos no processo. "Assim, a idia de transformao humana, no transformar-se a natureza 
atravs do trabalho,  percebida pelo trabalhador rural como claramente consistente com o que v de sua ao. "A percepo do trabalhador urbano, especialmente do 
setor tercirio, no  necessariamente a mesma. A discusso deve, neste caso, ser apresentada em novos termos, incluindo uma srie de mediaes outras".

#Quando os pedaos do tronco viraram tbuas, deixaram de ser pedaos de troncos. Quando Pedro e Antnio construram o barco com as tbuas, elas deixaram de ser tbuas. 
Viraram barco. A rvore pertence ao mundo da natureza. O barco, feito por Antnio e Pedro, pertence ao mundo da cultura, que  o mundo que os seres humanos fazem 
com o seu trabalho criador. O barco  cultura. A maneira de utilizar o barco  cultura A dana  cultura.

TRABALHO E TRANSFORMAO DO MUNDO C
O trabalho que transforma nem sempre dignifica os homens e as mulheres. S o trabalho livre nos d valor. S o trabalho com o qual estamos contribuindo para a criao 
de uma sociedade justa, sem exploradores nem explorados, nos dignifica. Na poca colonial, o nosso trabalho no era livre. Trabalhvamos para os interesses dos colonialistas 
que nos exploravam. Eles se apropriaram das nossas terras e da nossa fora de trabalho e enriqueceram  nossa custa. Quanto mais ricos ficavam eles, tanto mais pobres 
ficvamos ns. Eles eram a minoria exploradora. Ns ramos a maioria explorada. Hoje, somos independentes. J no trabalhamos para uma minoria. Trabalhamos para 
criar uma sociedade justa. Temos muito o que fazer ainda. Quanto  introduo  gramtica se fez, at esta altura e com apoio nos textos vistos, um estudo simples 
mas bastante completo dos verbos.

A LUTA DE LIBERTAO A
O MLSTP2 3 guiou a luta de libertao do nosso Povo. O PAIGC guiou a luta de libertao do Povo da Guin e Cabo Verde. O MPLA, Partido do Trabalho, guiou a luta 
de libertao do Povo angolano. A FRELIMO guiou a luta de libertao do Povo de Moambique. A independncia de todos no, Povo de So Tom e Prncipe, guineenses, 
caboverdianos, angolanos e moambicanos, no foi presente dos colonialistas. A nossa independncia resultou da luta dura e difcil. Luta da qual todos ns participamos, 
como Povos oprimidos, buscando a libertao. Cada um desses Povos travou a luta que pode
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MLSTP  Movimento de Libertao de So Tom e Prncipe. PAIGC  Partido Africano para a Independncia da Guin e Cabo Verde. (A tentativa de unidade entre a Guin 
e Cabo Verde, sugerida no prrpio nome do Partido, foi rmpida a partir de novembro de 1980 com as alteraes polticas que se verificaram em Guin-Bissau.) MPLA 
 Movimento pela Libertao de Angola. FRELIMO  Frente de Libertao de Moambique.

#lutar, e a soma das suas lutas derrotou os colonialistas. A nossa luta na frica foi decisiva para a vitria do Povo portugus contra a ditadura que o dominava. 
Sem a nossa luta, no teria havido o 25 de abril em Portugal. Mas a nossa luta no foi feita contra nenhuma raa nem contra o Povo portugus. Lutamos contra o sistema 
de explorao colonialista, contra o imperialismo, contra todas as formas de explorao. A reconstruo nacional  a continuao desta luta, para a cria o de uma 
sociedade justa. Ponto importante sobre que refletir, constantemente, na discusso do problema da luta de libertao e da reconstruo nacional  o da posio das 
massas populares como sujeito, tambm, da sua histria. O da sua presena poltica atuante, o da sua voz no processo da prpria reconstruo, a que fiz referncia 
na Primeira Parte deste trabalho.

A LUTA DE LIBERTAO B
O sacrifcio da nossa luta contra o colonialismo seria intil se a nossa independncia significasse apenas a substituio dos colonialistas por uma minoria privilegiada 
nacional. Se fosse assim, o nosso Povo continuaria explorado pelas classes dominantes dos pases imperialistas atravs da minoria nacional. Por isso  que a reconstrua 
nacional significa para no a criao de uma sociedade nova, uma sociedade de trabalhadores e de trabalhadoras, sem explorados nem exploradores. No deixemos para 
amanh o que podemos fazer hoje. A Luta continua! Sociedade nova, homem novo, mulher nova, todas estas eram - e continuam a ser expresses incorporadas  lin-guagem 
da transio revolucionria. Parecia, como continua a me parecer, importante chamar a ateno para o fato de que o surgimento da sociedade nova - como do homem novo 
e da mulher nova - no resulta de um ato mecnico. A sociedade nova  partejada, no aparece por decreto ou automaticamente. E o parto, que  processo,  sempre 
mais difcil e complexo do que simples e fcil.

A SOCIEDADE NOVA
O que  uma sociedade sem exploradores nem explorados?  a sociedade em que nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum grupo de pessoas, nenhuma classe explora a fora 
de trabalho dos outros.  a sociedade em que no h privilgios para os que trabalham com a caneta e s obrigaes para os que trabalham com as mos, nas roas e 
nas fbricas. Todos so trabalhadores a servio do bem de todos. No se cria uma sociedade assim da noite para o dia Mas  preciso que o Povo comece a ter na cabea, 
hoje, esta forma de sociedade, como Pedro e Antnio tinham na cabea, antes de derrubar a rvore, a forma do barco que fizeram.

#Ests a recordar- te de como Pedro e Antnio fizeram o barco? Derrubaram uma rvore. Desbastaram a rvore. Cortaram o seu tronco em pedaos ou toros. Com os pedaos, 
fizeram tbuas e com as tbuas fizeram o barco. Mas, antes mesmo de derrubar a rvore, Pedro e Antnio j tinham na cabea a forma do barco que iam fazer e j sabiam 
para que iam fazer o barco. Pedro e Antdnio trabalharam, transformaram a natureza. Para fazer a sociedade nova, precisamos tambm de trabalhar, precisamos de transformar 
a sociedade velha que ainda temos.  mais fcil, sem dvida, fazer o barco do que criar a nova sociedade. Mas, se Pedro e Antnio fizeram o barco, o povo de So 
Tom e Prncipe, com unidade, disciplina, trabalho e vigilncia, criar a n ova sociedade, com a sua vanguarda, o MLSTP. No prximo texto se volta a insistir mais 
uma vez, de um lado, em que no h absolutizao da ignorncia e, do outro, em que o Povo tem o direito de saber melhor o que j sabe e de saber o que ainda no 
sabe.

NINGUM IGNORA TUDO NINGUM SABE TUDO
Ningum ignora tudo. Ningum sabe tudo. Todos ns sabemos alguma coisa. Todos ns ignoramos alguma coisa. Pedro, por exemplo, sabe colher cacau muito bem. Aprendeu, 
na prtica, desde menino, como colher a cpsula do cacau sem estragar a rvore. Basta olhar e Pedro j sabe se a cpsula est em tempo de ser colhida. Mas Pedro 
no sabe imprimir jornal. Antnio aprendeu, na prtica, desde muito cedo, como se deve trabalhar para imprimir jornal. Antnio sabe imprimir jornal, mas no sabe 
colher cacau. Colher cacau e imprimir jornal so prticas igualmente necessrias  reconstruo nacional. Os conhecimentos que Pedro ganhou da prtica de colher 
cacau no bastam. Pedro precisa conhecer mais. Pedro tem o direito de conhecer mais. Pedro pode conhecer mais. A mesma coisa podemos dizer de Antnio. Os conhecimentos 
que Antnio ganhou da prtica de mprimir jornal no bastam. Antnio precisa conhecer mais. Antnio tem o direito de conhecer mais. Antnio pode conhecer mais. Estudar 
para servir ao Povo no  s um direito mas tambm um dever revolucionrio. Vamos estudar!

TRABALHO MANUAL - TRABALHO INTELECTUAL
Os homens e as mulheres trabalham, quer dizer, atuam e pensam. Trabalham porque fazem muito mais do que o cavalo que puxa o arado a servio do homem. Trabalham porque 
se tornaram capazes de prever, de programar, de dar finalidades ao prprio trabalho. No trabalho, o ser humano usa o corpo inteiro. Usa as suas mos e a sua capacidade 
de pensar. O corpo humano  um corpo consciente. Por isso, est errado separar o que se chama trabalho manual do que se chama trabalho intelectual. Os trabalhadores 
das fbricas e os trabalhadores das roas so intelectuais tambm. S nas sociedades em que menospreza o maior uso das mos em atividades prticas, colher cacau 
ou imprimir

#jornal so prticas consideradas inferiores. Na sociedade que estamos criando, no separanos a atividade manual da intelectual. Por isso, as nossas escolas sero 
escolas do trabalho. Os nossos filhos e as nossas filhas a prendero, desde cedo, trabalhando. Vai chegar um dia em que, em So Tom e Prncipe, ningum trabalhar 
para estudar nem ningum estudar para trabalhar, porque todos estudaro ao trabalhar.

A PRTICA NOS ENSINA
No podemos duvidar de que a nossa prtic a nos ensino. No podemos duvidar de que conhecemos muitas coisas por causa de nossa prtica. No podemos duvidar, por 
exemplo, de que sabemos se vai chover ao olhar o cu e ver as nuvens com uma certa cor. Sabemos at se  chuva ligeira ou tempestade a chuva que vem. Desde muito 
pequenos aprendemos a entender o mundo que nos rodeia. Por isso, antes mesmo de aprender a ler e a escrever palavras e frases, j estamos "lendo", bem ou mal, o 
mundo que nos cerca. Mas este conhecimento que ganhamos de nossa prtica no basta. Precisamos de ir alm dele. Precisamos de conhecer melhor as coisas que j conhecemos 
e conhecer outras que ainda no conhecemos. Seria interessante se os camaradas escrevessem numa folha de papel algumas das coisas que gostariam de conhecer. Faramos 
um outro Caderno tratando os assuntos que os camaradas e as camaradas nos sugerissem. Estudar  um dever revolucionrio!

O PROCESSO PRODUTIVO A
A madeira para as tbuas com que se fazem portas, janelas, mesas e barcos se acha, em seu estado bruto, nas rvores das florestas. O ferro de fazer martelos, enxadas, 
foices se acha, em seu estado bruto, debaixo da terra. Os seres humanos, com o seu trabalho, transformam as matrias brutas, fazendo com elas matrias-primas. As 
matrias brutas (como o ferro debaixo da terra, como a madeira nas rvores) e as matriasprimas (como o ferro j trabalhado e a madeira j preparada) se chamam objetos 
de trabalho. A terra a ser preparada para o cultivo do arroz  um objeto de trabalho. As rvores a serem derrubadas para com elas se fazerem tbuas so objetos de 
trabalho. As tbuas a serem transformadas em mesas, cadeiras, portas e janelas so objetos de trabalho.

#O PROCESSO PRODUTIVO B
Para transformar a matria bruta em matria-prima e para produzir algo c om a matdria-prima, precisamos de instrumentos. Precisamos de mquinas, de ferramentas variadas, 
de transporte. Estas coisas de que precisamos para produzir, isto , os instrumentos, as ferramentas, as mquinas, os transportes, se chamam meios de trabalho. O 
conjunto das matrias brutas, das matrias-primas e os meios de trabalho se chamam meios de produo. Assim, so meios de produo de uma roa: as as as os terras 
de cultivo, matrias brutas, matrias-primas, instrumentos, as ferramentas, os transportes.

O PROCESSO PRODUTIVO C
J vimos que, se no fosse o trabalho humano, a rvore no se transformaria em tbuas nem o ferro, em estado bruto, viraria lmina. Isso tudo se faz por causa do 
trabalho humano, por causa da fora de trabalho. Os meios de produo e os trabalhadores constituem o que se chama foras produtivas de uma sociedade. A produo 
resulta da combinao entre os meios de produo e a fora de trabalho. Para compreender uma sociedade  importante saber de que modo se organiza o seu processo 
produtivo.  preciso saber como se combinam os meios de produo e a fora de trabalho.  preciso saber a natureza das relaes sociais que se do na produo: se 
so relaes de explorao ou se so relaes de igualdade e de colaborao entre todos. Na poca colonial, as relaes sociais de produo eram de explorao. Por 
isto, tinham de ser violentas. Os colonialistas se apoderavam dos meios de produo e de nossa fora de trabalho. Eram donos absolutos das terras, das matrias brutas, 
das ma trias- primas, das ferramentas, das rnquinas, dos transportes e da fora de trabalho dos trabalhadores. Nada escapava ao seu poder e ao seu controle. Quando 
falamos, hoje, em reconstruo nacional para criar uma sociedade nova, estamos falando de uma sociedade realmente diferente. De uma sociedade em que as relaes 
sociais de produo j no sero de explorao, mas de igualdade e colaborao entre todos. No texto seguinte se volta a falar no carter no- mecanicista da transformao 
social.

#A AO DE TRANSFORMAR
Estamos nesta sala. Aqui funciona um Crculo de Cultura. A sala est organizada de uma certa maneira. As cadeiras, a mesa, o quadro- negro, tudo ocupa um certo lugar 
na sala. H cartazes nas paredes, figuras, desenhos. No seria difcil para ns organizar a sala de forma diferente. Se sentssemos necessidade de fazer isto, em 
pouco tempo, juntos, poderamos mudar completamente a posio das cadeiras, da mesa, do quadro- negro. A reorganizao da sala, em funo das novas necessidades 
reconhecidas, exigiria de no um pouco de esforo fsico e o trabalho em comum. Deste modo, transformaramos a velha organizao da sala e criaramos uma nova, de 
acordo com outros objetivos. Reorganizar a sociedade velha, transform- la para criar a nova sociedade no  to fcil assim. Por isso, no se cria a sociedade nova 
da noite para o dia, nem a sociedade nova aparece por acaso. A nova sociedade vai surgindo com as transformaes profundas que a velha sociedade vai sofrendo. Seguem 
se dois textos que tratam do problema da cultura e da identidade cultural, tema da mais alta importncia, sobretudo numa sociedade at bem pouco ainda colnia.

POVO E CULTURA
Os colonialistas diziam que somente eles tinham cultura. Diziam que antes da sua chegada  frica ns no tnhamos Histria. Que a nossa Histria comeou com a sua 
vinda. Estas afirmaes so falsas, so mentirosas. Eram afirmaes necessrias  prtica espoliadora que exerciam sobre ns. Para prolongar ao mximo a nossa explorao 
econmica, eles precisavam tentar a destruio da nossa identidade cultural, negando a nossa cultura, a nossa Histria. Todos os Povos tm cultura, porque trabalham, 
porque transformam e mundo e, ao transform- lo, se transformam. A dana do Povo  cultura. A msica do Povo  cultura, como cultura  tambm a forma como o Povo 
cultiva a terra. Cultura  tambm a maneira que o Povo tem de andar, de sorrir, de falar, de cantar, enquanto trabalha O calulu24  cultura como a maneira de fazer 
o calulu  cultura, como cultural  o gosto das comid as. Cultura so os instrumentos que o Povo usa para produzir. Cultura  a forma como o Povo entende e expressa 
o seu mundo e como o Povo se compreende nas suas relaes com o seu mundo. Cultura  o tambor que soa pela noite adentro. Cultura  o ritmo do tambor. Cultura  
o gingar dos corpos do Povo ao ritmo dos tambores.

A DEFESA DA NOSSA CULTURA
Uma das preocupaes do nosso Movimento e do nosso Governo  a
24

Um prato  base do azeite de dend. Pode ser feito com galinha, peixe ou mo de vaca.

#defesa da nossa cultura. Por isso, o Presidente Pinto da Costa disse: "Ao liquidarmos a cultura colonial, temos de criar no nosso pas uma cultura nova, baseada 
nas nossas tradies. Esta cultura nova que iremos criar no nosso pas aproveitar os aspectos positivos das nossas tradies, banindo todos os aspectos negativos 
da mesma. Naturalmente que a nova cultura no deve fechar as portas s influncias positvas das culturas estrangeiras. Ela estar aberta  cultura de todos os outros 
povos, mas preservando sempre o seu cunho nacional". Para isso, precisamos de produzir, precisamos de criar e de recriar. Precisamos de estudar sem esmorecer. Precisamos 
de desenvolver a cincia e a tcnica. No podemos parar ao primeiro obstculo que encontrarmos. A preocupao em torno de uma forma critica de pensar volta a manifestar- 
se nos dois textos sobre

PENSAR CERTO A
A nossa finalidade principal ao escrever os textos deste Caderno  desafiar os camaradas e as camaradas a pensarem certo. Que queremos dizer com desafiar os camaradas 
e as camaradas a pensar certa? Desafiar  um verbo2 5 que significa no s chamar para a luta, mas tambm problematizar, quer dizer, pr problemas, estimular, provocar. 
Assim como na alfabetizao no nos interessa ensinar ao Povo um puro be- a- b, no nos interessa tambm, na ps- alfabetizao, transferir ao Povo frases e textos 
para e ir lendo sem entender. A reconstruo le nacional exige de todos ns uma participao consciente e a participao consciente, em qualquer nvel da reconstruo 
nacional, exige ao e pensamento. Exige prtica e teoria sempre em unidade. No h prtica sem teoria nem teoria sem prtica. Pensar certo significa procurar descobrir 
e entender o que se acha mais escondido nas coisas e nos fatos que ns observamos e analisamos. Descobrir, por exemplo, que no  o "mau olhado" o que est fazendo 
Pedrinho triste, ma s a verminose. No ser, portanto, somente com as benzeduras que devolvemos a alegria a Pedrinho, mas com a orientao mdica. Volta, agora, 
aos textos anteriores do teu Caderno. Em casa, quando tenhas um tempo disponvel, l um, l outro. Pensa bem em cada linha, em cada afirmao e procura entender 
melhor o que j leste.

PENSAR CERTO B
Pensar certo, descobrir a razo de ser dos fatos e aprofundai os conhecimentos que a prtica nos d no so um privilgio de alguns mas um direito que o Povo tem, 
numa sociedade revolucionria. O nosso
25

Os verbos foram estudados desde o comeo do Caderno.

#Governo, de acordo com a orientao poltica do nosso Movimento, vem procurando atender a este direito do nosso Povo. Ao lado da reorientao do modo de produzir, 
ao lado do estmulo  produo, o nosso Governo se preocupa com a educao sistemtica do Povo. Tenta agora um exerccio, procurando pensar certo. Escreve, numa 
folha de papel, como tu vs este problema: "A educao das crianas e dos adultos, depois da Independncia do nosso pas, pode ser igual , educao que tnhamos 
antes da Independncia?" Se pensas que pode ser igual, deves dizer porqu. Se pensas que no pode, deves dizer por qu. Se, para ti, a educao atual deve ser diferente 
da educado que tnhamos antes da Independncia, aponta alguns aspectos da diferena. Parece interessante agora, antes de concluir este trabalho com a transcrio 
de mais alguns textos, fazer consideraes em torno de um ou dois pontos, pelo menos, no campo do estudo da lngua e da linguagem. Nesse Caderno, a introduo  
gramtica no ultrapassa a anlise das chamadas categorias gramaticais, nunca, porm, feita de maneira formal ou mecnica. Pelo contrrio, sempre dinamicamente. 
Uma das preocupaes nossas, considerando a necessidade que tero - e que seria funesto se no viessem a ter - os participantes dos crculos de ps- alfabetizao 
de ler documentos do Movimento, de ler o jornal A Revoluo, de ler documentos oficiais do Governo, etc., era introduzir o uso do pronome relativo que. A razo desta 
necessidade est em que  exatamente este pronome um dos que possibilitam o emprego muito comum, e s vezes at abusivo, no discurso no-popular, das oraes intercaladas. 
Quanto mais estas oraes distanciam o sujeito da orao principal de seu verbo, tanto menos fcil fica a comp reenso do discurso. No  assim, na verdade, que 
falam os grupos populares. Diante desta constatao, no me parece que se deva simplesmente esquecer o fato, mas instrumentar os grupos populares para que dominem 
esta forma de linguagem que revela outra estrutura de pensar que no a sua. Assim, na pgina 51 do Caderno se diz: Entre outros tipos de pronomes, vamos conhecer 
agora mais um, muito importante. Mas vamos conhec- lo com exemplos. O livro que comprei  bom. Observa: antes da palavra que, ns temos e palavra livro. Livro, 
como sabes,  um substantivo masculino, comum, singular. Se agora substitures a palavra que por o qual, vers que o sentido do pensamento  o mesmo. Tanto faz dizer 
O livro que eu comprei  bom como O livro o qual eu comprei  bom. Outro exemplo:

#A roa que visitei  bonita. Neste exemplo, antes da palavra que temos a palavra roa. Roa, como tu sabes,  um substantivo comum, feminino, singular. Se agora 
substitures a palavra que, que vem depois de roa, por a qual, vers que o sentido do pensamento  o mesmo. Tanto faz dizer A roa que eu visitei  bonita como 
A roa a qual eu visitei  bonita. Presta ateno: todas as vezes que a palavra que pode ser substituda por o qual, a qual, os quais, as quais, a palavra que  
pronom e. Outros exemplos: O texto que eu li  bom. Compreendi as pginas que escreveste. A roa que produz mais  esta Na pgina 53 do Caderno: Vamos aprender a 
usar a palavra cujo, outro pronome muito importante. Vejamos alguns exemplos: 1. O menino cujo pai chegou de Angola  este. 2. Venho de uma roa cuja produo de 
cacau este ano  muito elevada. 3. O Crculo de Cultura cujos participantes mais trabalharam recebeu uma carta de estmulo do Camarada Presidente. 4. Trabalhamos 
seriamente na leitura deste Livro, cujas pginas mais difceis recebem profunda ateno. No primeiro exemplo, cujo  igual a do qual. Observa como no se altera 
em nada o sentido da frase substituindo-se cujo por do qual: O menino do qual o pai chegou de Angola  este. No segundo exemplo, cuja  igual a da qual, por causa 
do substantivo roa, feminino, que vem antes: Venho da roa da qual a produo etc. No terceiro exemplo, cujos  igual a do qual, por causa de Crculo de Cultura: 
O Crculo de Cultura do qual os participantes mais trabalharam etc. No quarto exemplo, cujas  igual a do qual, por causa de Livro:25. Os verbos foram estudados 
desde o comeo do Caderno. Trabalhamos seriamente na leitura deste Livro do qual as pginas etc. Agora, uma srie de exemplos com o pronome adjetivas. que constituindo 
oraes

Aqui temos dois montes de palavras com sentido completo:

#Comprei hoje este livro. Ele  bom. O primeiro monte de palavra : Comprei hoje este livro. O segundo monte de palavras : Ele  bom. Organizando agora de forma 
diferente estes montes de palavras, podemos dizer o mesmo que dissemos antes. Para este efeito, vamos usar o pronome que, que j conhecemos. Repara como vai ficar. 
Este livro que comprei hoje  bom. Outro exemplo: Estes homens participaram ativamente no trabalho voluntrio. Eles acabam de chegar felizes da roa. De novo, temos 
dois montes de palavras. Primeiro monte: Estes homens participaram ativamente no trabalho voluntrio. Segundo monte: Eles acabam de chegar felizes da roa. Vamos 
ver agora como podemos dizer o mesmo com o pronome que: Estes homens, que participaram ativamente no trabalho voluntrio, acabam de chegar felizes da roa. Mais 
outro exemplo: Os camaradas se defenderam do ttano. Os camaradas estavam vacinados contra ele. Primeiro monte de palavras: Os camaradas se defenderam do ttano. 
Segundo monte de palavras: Os camaradas estavam vacinados contra ele. Agora com o pronome que: Os camaradas, que se defenderam do ttano, estavam vacinados contra 
ele. Vejamos agora os ltimo s textos que, somando- se aos que j foram transcritos, nos do uma viso geral do Caderno.

#A AVALIAO DA PRTICA
No  possvel praticar sem avaliar a prtica. Avaliar a prtica  analisar o que se faz, comparando os resultados obtidos com as finalidades que procuramos avanar 
com a prtica. A avaliao da prtica revela acertos, erros e imprecises. A avaliao corrige a prtica, melhora a prtica, aumenta a nossa eficincia. O trabalho 
de avaliar a prtica jamais deixa de acompanh- la. As camaradas e os camaradas tm uma prtica neste Crculo de Cultura. Trabalham com o animador cultural, seguem 
um programa com vistas a certos fins. Esto no Crculo de Cultura envolvidos na prtica de ler cada vez melhor, de interpretar o que lem, de escrever, de contar, 
de aumentar os conhecimentos que j tm e de conhecer o que ainda no conhecem. A reconstruo nacional precisa de que o nosso Povo conhea mais e melhor a nossa 
realidade. Nosso Povo precisa de preparar-se para dar soluo a nossos problemas. A Comisso Coordenadora dos Cculos de Cultura Popular  o setor do Ministrio 
de Educao encarregado de organizar, de preparar, de planejar e de executar uma parte de nossa poltica educacional. A que se desenvolve, com os adultos, nos Crculos 
de Cuttura. A Comi sso Coordenadora no pode deixar, assim, de avaliar a prtica que se d nestes Crculos. Mas os camaradas devem tambm avaliar a sua prpria 
prtica. Devem examinar constantemente os avanos que esto dando e procurar vencer as dificuldades que encontram. Se os camaradas analisarem sua prpria prtica 
estaro participando com o camarada animador e com a Comisso Coordenadora na procura de melhores instrumentos de trabalho. A prtica precisa da avaliao como os 
peixes precisam de gua e a lavoura da chuva.

PLANIFICAO DA PRTICA
J vimos que no h prtica sem avaliao. Mas a prtica exige tambm seu planejamento. Planejar a prtica significa ter uma ideia clara dos objetivos que queremos 
alcanar com ela. Significa ter um conhecimento das condies em que vamos atuar, dos instrumenios e dos meios de que dispomos. Planejar a prtica significa tambm 
saber com quem contamos para execut-la. Planejar significa prever os prazos, os diferentes momentos da ao que deve estar sempre sendo avaliada Podemos planejar 
a curto prazo, a mdio prazo e a longo prazo. s vezes a avaliao nos ensina que, se os objetivos que tnhamos eram corretos, os meios que escolhemos no eram os 
melhores. s vezes, percebemos tambm, atravs da prtica da avaliao, que os prazos que havamos determinado no correspondiam. As nossas reais possibilidades. 
Todas as atividades do nosso pas precisam de ir sendo cada vez melhor planejadas e executadas. Que seria da nossa economia se, chegado o momento da primeira colheita 
do cacau, no estivssemos organizados para faz-la? O cacau se perderia e seria um desastre para todos.  importante que o nosso Povo entenda cada vez mais

#a necessidade de avaliar a sua prtica e a necessidade de participar nos planos da reconstruo nacional.

O HOMEM NOVO E A MULHER NOVA
O homem novo e a mulher nova no aparecem por acaso. O homem novo e a mulher nova vo nascendo na prtica da reconstruo revolucionria da sociedade. Mas, de qualquer 
maneira, podemos pensar em algumas qualidades que caracterizam o homem novo e a mulher nova. O compromisso com a causa do Povo, com a defesa dos interesses do Povo 
 uma destas qualidades. A responsabilidade no cumprimento do dever, no importa a tarefa que nos caiba,  um sinal do homem novo e da mulher nova. O sentido da 
correta militncia poltica, na qual vamos aprendendo a superar o individualismo, o egosmo,  um sinal, tambm, do homem novo e da mulher nova. A defesa intransigente 
da nossa autonomia, da liberdade que conquistamos marca igualmente o homem novo e a mulher nova. O sentido da solidariedade, no somente com o nosso Povo, mas tambm 
com todos os Povos que lutam pela sua libertao,  outra caracterhfica do homem novo e da mulher nova. No deixar para fazer amanh o que se pode fazer hoje e fazer 
cada dia melhor o que devemos fazer  prprio do homem novo e da mulher nova. Participar, conscientemente, nos esforos da reconstruo nacional  um dever que o 
homem novo e a mulher nova exigem de si mesmos. Estudar, como um dever revolucionrio, pensar certo, desenvolver a curiosidade diante da realidade a ser melhor conhecida, 
criar e recriar, criticar com justeza e aceitar as crticas construtivas, combater as atividades antipopulares so caractersticas do homem novo e da mulher nova. 
Participando mais e mais na luta pela reconstruo nacional, vamos fazer nascer em ns mesmos o homem novo e a mulher nova.

O HOMEM NOVO, A MULHER NOVA E A EDUCAO
Uma das qualidades mais importantes do homem novo e da mulher nova  a certeza que tm de que no podem parar de caminhar e a certeza de que cedo o novo fica velho 
se no se renovar. A educao das crianas, dos jovens e dos adultos tem uma importncia muito grande na formao do homem novo e da mulher nova. Ela tem de ser 
uma educao nova tambm, que estamos procurando pr em prtica de acordo com as nossas possibilidades. Uma educao completamente diferente da educao colonial. 
Uma educao pelo trabalho, que estimule a colaborao e no a competio. Uma educao que d valor  ajuda mtua e no ao individualismo, que desenvolva o esprito 
crtico e a criatividade, e no a passividade. Uma educao que se fundamente na unidade entre a prtica e a teoria, entre o trabalho manual e o trabalho intelectual 
e que, por isso, incentive os educandos a pensar certo. Uma educao que no favorea a mentira, as ideias falsas, a indisciplina. Uma educao poltica, to poltica 
quanto qualquer outra educao, mas que no tenta passar por neutra. Ao proclamar que no  neutra, que a neutralidade  impossvel, afirma que a sua poltica  
a dos interesses do nosso Povo.

#Com o ltimo texto, que fecha o Caderno, parece que posso tambm concluir este trabalho, sem mais comentrios. Camarada, Chegaste ao fim deste segundo Caderno de 
Cultura Popular. Esperamos que tenhas gost ado da experincia que ele te proporcionou. A experincia de aumentar os conhecimentos que j tinhas, por causa de tua 
prtica, antes mesmo de aprenderes a ler e a escrever, a experincia de consolidar e aprofundar, em grupo, os conhecimentos que obtiveste na primeira fase de teus 
estudos e a de ganhar outros conhecimentos. A experincia de discutir mais organizadamente um maior e variado nmero de temas, a partir da leitura de textos. Mas, 
sobretudo, esperamos que tenhas percebido a importncia de pensar cerio, de ref letir. Esperamos que tenhas percebido que a nossa tarefa revolucionria ser a de 
simplesmente dar informaes. A nossa tara revolucionria exige de ns no apenas informar corretemente mas tambm formar. Ningum se forma realmente se no assume 
responsabilidades no ato de formar- se. O nosso Povo no se formar na passividade, mas na ao sempre em unidade com o pensamento. Da a nossa preocupao em jamais 
sugerir aos camaradas que memorizassem mecanicamente as coisas. Da a nossa preocupao em desafiar os camaradas a pensar, a analisar a realidade. Esta  a orientao 
que caracteriza todos os Cadernos de Cultura Popular que os camaradas esto conhecendo e os que viro a conhecer.

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